A história de São Rafael, no Rio Grande do Norte, é marcada por uma mudança que alterou para sempre a paisagem e a memória do município. A antiga sede da cidade, formada às margens do rio Piranhas, foi retirada do caminho das águas durante a construção da Barragem Armando Ribeiro Gonçalves, no início da década de 1980. Depois da transferência dos moradores, a área urbana ficou submersa pelo reservatório.
Uma nova cidade foi construída para receber a população. O município continuou existindo com o mesmo nome, mas a sede original desapareceu sob as águas. Desde então, São Rafael passou a ser lembrada como uma cidade submersa do sertão potiguar, enquanto fotografias, relatos de antigos moradores e estudos acadêmicos passaram a preservar aspectos de sua vida cotidiana.
As origens de São Rafael às margens do rio Piranhas
Antes de se chamar São Rafael, a localidade era conhecida como Caiçara. O povoado se formou nas proximidades do rio Piranhas, em uma área ocupada inicialmente por um aldeamento indígena. A presença do rio favoreceu a criação de gado e o cultivo da terra, atividades que contribuíram para o crescimento da população ao longo do século 18.
Registros históricos citados pela Prefeitura de São Rafael apontam que o capitão João Francisco da Costa era proprietário de terras na região em 1765. A ocupação se consolidou gradualmente, acompanhando a expansão da pecuária e das lavouras no interior do Rio Grande do Norte.
Entre 1845 e 1850, o frei capuchinho Serafim de Catânia passou pela área e difundiu o nome São Rafael. A mudança, no entanto, não foi imediatamente incorporada pela população. Durante algum tempo, o nome Caiçara continuou sendo usado no cotidiano e também apareceu em registros oficiais.
Em 1858, foi criada na localidade uma escola de alfabetização, chamada Cadeira de Primeiras Letras. A documentação relacionada à criação da escola ainda fazia referência a Caiçara, evidenciando o período de transição entre os dois nomes. Com o passar dos anos, São Rafael se tornou a denominação predominante.
Do povoado ao município
O desenvolvimento da localidade esteve ligado à organização comunitária, à atividade religiosa e à criação de estruturas básicas para a população. Entre os nomes lembrados pela história municipal está o de Luiz Martins de Oliveira Barros, associado à construção do cemitério público, em 1908, e à implantação de equipamentos que ajudaram a estruturar o povoado.
Também foram construídos uma igreja, uma casa paroquial e um galpão destinado à realização de feiras. A instalação dos serviços postal e telegráfico ampliou a conexão da comunidade com outras áreas do estado.
Em 1938, São Rafael passou à condição de distrito de Santana do Matos. Dez anos depois, em 23 de dezembro de 1948, o município conquistou a emancipação política por meio do Decreto-Lei nº 146, desmembrando-se de Santana do Matos.
A emancipação consolidou a autonomia administrativa de uma comunidade que já tinha trajetória própria, economia baseada principalmente nas atividades rurais e uma identidade construída em torno do rio, da igreja, das relações de vizinhança e das festas locais.
O projeto da Barragem Armando Ribeiro Gonçalves
A transformação definitiva ocorreu com o Projeto Baixo-Açu, desenvolvido para ampliar a oferta de água e estimular o desenvolvimento econômico do semiárido potiguar. A principal obra do projeto foi a Barragem Engenheiro Armando Ribeiro Gonçalves, construída no rio Piranhas-Açu.
O reservatório foi projetado para armazenar cerca de 2,4 bilhões de metros cúbicos de água. A obra, iniciada no começo da década de 1980, atingiu uma área que incluía a antiga sede de São Rafael. Para formar a bacia de inundação, foi necessário remover moradores, desapropriar propriedades e desocupar a área urbana.
Estudos acadêmicos sobre o processo descrevem a construção da barragem como uma intervenção de grande impacto social. A obra prometia ampliar a segurança hídrica e criar condições para novas atividades econômicas, mas também provocou a desestruturação de comunidades e a perda de referências materiais importantes para os moradores.
Segundo pesquisa publicada na revista Equatorial, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a cidade estava no caminho das águas previstas pelo projeto. A solução adotada foi planejar uma nova sede para receber a população, enquanto a antiga cidade seria alcançada pelo reservatório.
A retirada dos moradores e a construção de uma nova cidade
A transferência da população não representou apenas uma mudança de endereço. Para os moradores, significou deixar casas, terrenos, ruas, prédios públicos, espaços religiosos e locais associados à história familiar. A antiga São Rafael não era somente uma área destinada à inundação: era o espaço onde as pessoas haviam nascido, trabalhado, criado os filhos e construído relações comunitárias.
O deslocamento ocorreu em meio a negociações, desapropriações e incertezas. Pesquisas sobre a memória da cidade registram relatos de moradores que resistiram à mudança ou que retornaram temporariamente às antigas casas quando as primeiras cheias ainda não haviam coberto toda a área.
Com o avanço das águas, porém, a permanência se tornou impossível. A população foi encaminhada para a nova São Rafael, construída em outro local. A sede atual passou a concentrar os serviços públicos e a vida administrativa do município, enquanto a antiga área urbana foi gradualmente encoberta pelo reservatório.
A barragem foi concluída em 1984, de acordo com registros acadêmicos sobre o Projeto Baixo-Açu. A partir desse período, a antiga cidade deixou de fazer parte da paisagem cotidiana e passou a existir principalmente nas lembranças dos antigos moradores, em fotografias e em documentos preservados por famílias e instituições.
A torre da igreja como símbolo da cidade desaparecida
Durante anos, uma das imagens mais conhecidas de São Rafael foi a torre da igreja que permanecia visível acima do espelho d’água. A estrutura se transformou em um marco visual da antiga cidade e em um símbolo da permanência da memória diante da transformação provocada pela barragem.
O pesquisador João Batista Figueredo de Oliveira registrou que a torre resistiu por anos aos efeitos da água e do tempo. Quando visitou a região, em 2013, a estrutura já não existia mais. O desaparecimento da torre reforçou a sensação de que os últimos vestígios visíveis da antiga sede haviam sido incorporados pelo reservatório.
A imagem da torre também ajudou a formar a associação de São Rafael com a ideia de uma cidade perdida. O município passou a ser chamado, em referências culturais e populares, de “Atlântida do Sertão”. A expressão relaciona a paisagem submersa à memória de uma cidade que continua presente, embora não possa mais ser vista como antes.
Memória, fotografias e relatos dos antigos moradores
A história da antiga São Rafael foi preservada por diferentes meios. Fotografias de ruas, casas, festas, estabelecimentos comerciais e prédios públicos passaram a funcionar como registros de um espaço que deixou de existir fisicamente.
Os depoimentos dos moradores também se tornaram fontes importantes para reconstruir o cotidiano da cidade. Eles ajudam a identificar lugares, relações familiares, atividades econômicas e acontecimentos que nem sempre aparecem nos documentos oficiais.
Um estudo publicado na revista Tempo e Argumento analisou como antigos moradores utilizaram fotografias e redes sociais para reconstruir a memória da cidade. A pesquisa mostra que essas imagens não eram apenas lembranças particulares, mas também instrumentos de preservação da identidade coletiva.
O trabalho destaca que a memória da antiga São Rafael foi transmitida entre gerações. Filhos e netos de moradores passaram a conhecer a cidade submersa por meio de narrativas familiares, álbuns de fotografia, músicas, poemas e relatos sobre os locais que existiam antes da barragem.
Uma obra estratégica e um custo social permanente
A Barragem Armando Ribeiro Gonçalves se tornou uma das principais estruturas de armazenamento de água do Rio Grande do Norte. O reservatório passou a ter papel relevante no abastecimento e nas atividades produtivas do interior do estado, especialmente na região do Vale do Açu.
Esse papel, contudo, não elimina o impacto causado pela remoção da antiga São Rafael. A história do município mostra como grandes obras de infraestrutura podem produzir benefícios regionais e, ao mesmo tempo, impor perdas profundas às comunidades diretamente atingidas.
No caso de São Rafael, a mudança alterou a organização territorial, interrompeu vínculos com o espaço original e obrigou a população a reconstruir a vida em uma nova sede. A cidade atual preserva o nome e a continuidade administrativa do município, mas a antiga sede permanece como uma espécie de camada submersa de sua história.
O que restou da antiga São Rafael
Atualmente, a antiga cidade não está acessível como um conjunto urbano preservado. O que permanece são as referências documentais, as imagens, os relatos orais e a paisagem do reservatório que ocupa a área onde existia a sede municipal.
A história de São Rafael é, portanto, marcada por duas cidades: a antiga, formada às margens do rio Piranhas e desaparecida sob as águas, e a nova, construída para abrigar os moradores e dar continuidade à vida administrativa do município.
Mais de quatro décadas depois da formação do reservatório, a memória da cidade submersa continua sendo parte central da identidade local. A antiga São Rafael não está apenas no fundo da barragem. Ela também está nas histórias contadas pelas famílias, nos registros preservados por pesquisadores e na lembrança de uma comunidade que precisou deixar para trás o lugar onde sua trajetória começou.








