Acari, no interior do Rio Grande do Norte, é uma das cidades que ajudam a contar a formação histórica e cultural do Seridó potiguar. Cercado por serras, vales e áreas de vegetação típica do semiárido, o município combina referências religiosas, memória sertaneja e paisagens associadas ao rio Acauã e ao Açude Gargalheiras.
Com população de 10.597 habitantes no Censo 2022 e área territorial de 608,466 quilômetros quadrados, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Acari mantém características de uma cidade de pequeno porte, mas possui um patrimônio que ultrapassa os limites de seu núcleo urbano. A história local está ligada à ocupação do sertão, à criação de fazendas, à construção de templos e ao aproveitamento dos recursos hídricos da região. (ibge.gov.br)
O surgimento de Acari às margens do rio Acauã
A formação de Acari está relacionada ao rio Acauã, curso d’água que serviu como referência para os primeiros moradores e viajantes que circulavam pelo interior. Segundo registros históricos reunidos pelo IBGE, o nome do município estaria associado aos acaris, peixes de escamas ásperas e carne branca que viviam em um poço abastecido pelo rio.
Antes de se tornar uma cidade, a área teria funcionado como ponto de descanso e apoio para pessoas que percorriam rotas entre o litoral e o sertão. A disponibilidade de água favoreceu a permanência de famílias e a formação de um pequeno núcleo de ocupação. A tradição histórica também registra a presença de grupos indígenas na região antes do avanço da colonização e da expansão das fazendas sertanejas. (ibge.gov.br)
O povoamento ganhou impulso no século XVIII. Em 1737, o sargento-mor Manuel Esteves de Andrade obteve autorização do bispo de Olinda para construir uma capela dedicada a Nossa Senhora da Guia. A iniciativa religiosa contribuiu para organizar a ocupação do lugar e consolidar a comunidade em torno de um templo.
Os registros locais indicam que, antes de 1750, já havia fileiras de casas próximas à Igreja do Rosário. A disposição das moradias acompanhava o relevo e mantinha relação visual com o rio Acauã, que corria na parte mais baixa do vale. Essa configuração ajudou a definir a paisagem urbana que se desenvolveria nas décadas seguintes. (acari.rn.leg.br)
Da povoação à cidade
Ao longo do século XIX, Acari passou por mudanças na organização urbana e na economia. As casas, antes mais dispersas, foram sendo reconstruídas e alinhadas no núcleo da povoação. A produção agropecuária e, posteriormente, o cultivo do algodão contribuíram para ampliar a circulação de riquezas e estimular a construção de novos edifícios.
O município foi elevado à categoria de vila em 1833, teve distrito criado em 1835 e recebeu o título de cidade em 15 de agosto de 1898. A sequência administrativa revela a transformação gradual de um núcleo ligado às fazendas e aos caminhos do sertão em uma estrutura urbana com funções próprias de comércio, administração e vida religiosa. (ibge.gov.br)
A construção da atual matriz de Nossa Senhora da Guia, entre 1857 e 1863, é um dos marcos desse período de expansão. O templo foi erguido com apoio de fazendeiros locais e passou a ocupar posição central na vida comunitária. Ao lado da Igreja do Rosário, a matriz ajuda a preservar a memória das diferentes etapas de formação da cidade.
Patrimônio religioso e memória urbana
O patrimônio arquitetônico de Acari está concentrado principalmente no centro histórico e em seus templos religiosos. A Igreja do Rosário remete aos primeiros tempos da povoação, enquanto a matriz de Nossa Senhora da Guia expressa o crescimento econômico e urbano ocorrido no século XIX.
Mais do que edificações antigas, esses espaços registram práticas sociais, festas religiosas, formas de organização comunitária e a presença da fé na formação do Seridó. Em cidades sertanejas, as igrejas frequentemente funcionaram como pontos de referência para a expansão das ruas e como locais de encontro em períodos de celebração.
A preservação desse conjunto depende da manutenção dos prédios, do cuidado com o entorno e da valorização da história local. Também exige que novas intervenções urbanas respeitem a escala e as características das construções tradicionais, evitando que a paisagem histórica perca sua identidade.
O Museu Histórico de Acari
Outra instituição importante para compreender o município é o Museu Histórico de Acari. Criado em 1990, o museu tem como proposta apresentar a história do povo acariense e aspectos da vida do homem sertanejo do Seridó.
O acervo é organizado em módulos relacionados a atividades econômicas e culturais da cidade e da região. Entre os temas representados estão a arte sacra, os ofícios tradicionais, a tecnologia do couro, a produção de queijo, o algodão e a pesca. O conjunto ajuda a mostrar que a história de Acari não se resume à trajetória de seus edifícios, mas também envolve técnicas, objetos, profissões e hábitos transmitidos entre gerações. (visite.museus.gov.br)
O museu também funciona como espaço de educação patrimonial. Programações culturais, palestras e passeios pelo centro histórico contribuem para aproximar moradores e visitantes dos acontecimentos que marcaram a formação urbana. Iniciativas voltadas à arqueologia e à memória do Seridó ampliam esse trabalho ao relacionar a história de Acari a um território mais amplo.
A paisagem do Açude Gargalheiras
Entre os principais símbolos naturais de Acari está o Açude Gargalheiras, localizado em uma área cercada por serras e formações rochosas. O reservatório foi construído no leito do rio Acauã e aproveitou a configuração estreita entre as serras do Minador e das Cruzes.
O próprio nome Gargalheiras está relacionado à ideia de garganta ou passagem estreita entre montanhas. Essa característica geomorfológica explica parte da força visual da paisagem: o espelho d’água se estende entre elevações rochosas, criando um cenário em que água, relevo e vegetação se encontram de forma marcante.
O Serviço Geológico do Brasil classifica o entorno do reservatório como um geossítio e destaca sua importância geomorfológica. A área também é reconhecida por seu valor paisagístico, ambiental, histórico e turístico para o Rio Grande do Norte. (sgb.gov.br)
A história da barragem começou antes da obra definitiva. Estudos para a construção de um açude na garganta do rio Acauã foram realizados desde 1909. As obras tiveram início em 1913, passaram por interrupções e foram retomadas em diferentes momentos até a consolidação da estrutura que marcou a paisagem regional.
O reservatório representa uma resposta histórica às dificuldades de abastecimento e à irregularidade das chuvas no semiárido. Ao mesmo tempo, tornou-se uma referência visual e afetiva para a população de Acari e para os visitantes interessados nas paisagens do Seridó. (acari.rn.gov.br)
Serra, caatinga e formas do semiárido
A natureza de Acari é marcada pela transição entre áreas de depressão sertaneja e trechos associados ao Planalto da Borborema. O relevo reúne superfícies onduladas, vales e elevações rochosas, com altitudes que variam conforme a área do município.
Esse cenário está inserido no domínio da Caatinga, bioma adaptado à alternância entre períodos secos e chuvas concentradas. A vegetação muda de aparência ao longo do ano: durante a estiagem, predominam tons mais claros e a paisagem evidencia a resistência das espécies; depois das chuvas, o verde reaparece e transforma temporariamente o aspecto das encostas e dos vales.
As serras próximas ao Açude Gargalheiras reforçam a identidade visual do município. Rochas expostas, caminhos rurais, leitos de rios intermitentes e áreas de vegetação nativa compõem uma paisagem que pode ser observada tanto a partir das estradas quanto dos pontos elevados do território.
A visita a áreas naturais exige atenção às condições climáticas, ao acesso e à preservação ambiental. O calor, a baixa disponibilidade de sombra e a irregularidade dos cursos d’água tornam recomendáveis planejamento, hidratação e respeito às áreas de vegetação e aos espaços de uso comunitário.
Entre patrimônio e turismo de experiência
O potencial turístico de Acari está na combinação entre história e natureza. Em um mesmo roteiro, é possível conhecer igrejas, observar a arquitetura do centro, visitar o Museu Histórico e seguir em direção às paisagens do Açude Gargalheiras.
Esse tipo de experiência valoriza o deslocamento pelo território e permite compreender como a cidade foi construída em relação ao rio, às atividades econômicas e às condições do semiárido. A viagem deixa de ser apenas uma passagem por pontos isolados e passa a incluir a leitura da paisagem e das memórias associadas a cada lugar.
O turismo cultural também pode contribuir para a economia local ao estimular serviços de alimentação, hospedagem, transporte, artesanato e guiamento. Para que esse potencial seja aproveitado de forma duradoura, é necessário conciliar visitação, conservação do patrimônio e participação dos moradores.
Uma cidade ligada à identidade do Seridó
Acari sintetiza características importantes do Seridó potiguar: a ocupação histórica do sertão, a centralidade das igrejas, a força das atividades rurais, a adaptação ao clima semiárido e a permanência de tradições comunitárias.
Sua história começou junto às águas do rio Acauã, ganhou forma com a construção de capelas e casas, cresceu com o comércio e o algodão e passou a incorporar novos significados com a criação do Açude Gargalheiras. Hoje, o município reúne referências que permitem observar como sociedade e natureza se relacionam ao longo do tempo.
Conhecer Acari é, portanto, percorrer uma paisagem em que o patrimônio construído e o ambiente natural se complementam. Entre templos, objetos antigos, serras e reservatórios, a cidade preserva uma parte expressiva da memória do interior do Rio Grande do Norte.








