O Boi de Reis no Rio Grande do Norte continua presente em comunidades rurais, bairros urbanos e municípios do interior, preservado por mestres, músicos, brincantes e famílias que mantêm a tradição entre gerações. Também conhecido no estado como Boi Calemba, o folguedo combina música, dança, teatro, humor, religiosidade e elementos da vida comunitária.
No centro da apresentação está o boi, personagem que participa de uma narrativa marcada por sua morte e ressurreição. A história, porém, é apenas parte da manifestação. O espetáculo também envolve cantorias, personagens mascarados, figurinos coloridos, instrumentos tradicionais e uma relação estreita com os ciclos religiosos e festivos de cada comunidade.
Um levantamento citado em reportagem publicada pela Tribuna do Norte identificou 113 grupos de boi no estado. Na ocasião da pesquisa, 23 estavam ativos. O mapeamento mostra a extensão da manifestação, mas também revela uma característica recorrente dos folguedos populares: muitos grupos dependem principalmente do esforço dos próprios mestres e brincantes para continuar existindo.
Uma tradição com características próprias
O Boi de Reis potiguar integra a família de manifestações brasileiras que têm o boi como personagem central. Em diferentes regiões do país, a brincadeira recebe nomes, ritmos, personagens e formas de apresentação próprios. No Rio Grande do Norte, a denominação Boi Calemba é utilizada para identificar a versão local do folguedo.
A manifestação reúne referências religiosas e elementos do cotidiano rural. O enredo tradicional envolve personagens como o vaqueiro, o dono da fazenda, Catirina e o boi. Em algumas versões, Catirina, grávida, deseja comer a língua do animal mais bonito da propriedade. O vaqueiro atende ao pedido, o boi morre e, depois das rezas e da intervenção dos brincantes, volta à vida.
Essa estrutura dramática permite que a apresentação transite entre o sagrado e o profano. Há momentos de devoção, cantos de saudação, cenas de comicidade, dança e interação com o público. O resultado é um teatro popular construído coletivamente, sem depender de uma separação rígida entre palco e plateia.
De acordo com informações reunidas pelo programa de Registro do Patrimônio Vivo do Rio Grande do Norte, os grupos tradicionais são formados por mestres, galantes, damas, mascarados e músicos. A composição varia conforme a comunidade, mas a rabeca, o pandeiro, o triângulo e, em alguns casos, a sanfona aparecem entre os instrumentos associados ao folguedo.
Memória transmitida dentro das famílias
Em muitas comunidades, aprender a brincar Boi de Reis não significa apenas participar de ensaios. O conhecimento é transmitido pela observação, pela convivência e pela participação em apresentações, festas e encontros familiares. Crianças acompanham pais, avós e outros parentes até que passam a assumir personagens, tocar instrumentos ou ajudar na preparação dos figurinos.
Essa transmissão oral explica por que a memória dos grupos costuma estar concentrada em determinados mestres e famílias. São eles que conhecem as toadas, os passos, a ordem das cenas, os nomes dos personagens e as regras específicas de cada brincadeira.
O Boi de Reis Pintadinho de Cuité, formado em 1908 nos distritos de Bocas e Cuité, no município de Pedro Velho, é um dos exemplos mais conhecidos dessa continuidade. Segundo o registro do programa de Patrimônio Vivo do estado, o grupo foi fundado pelos mestres Manoel Joaquim e Geraldo Marreiro e mantém uma trajetória associada à história das comunidades agrícolas da região.
Na descrição do grupo, a apresentação é acompanhada por rabequeiro, pandeirista e tocador de triângulo. A “masseira”, canto inicial de saudação, prepara a entrada dos galantes e integra uma sequência de cantorias que ajudam a organizar o auto. O grupo foi reconhecido como Patrimônio Vivo do Rio Grande do Norte em 2010.
O ciclo das apresentações
Tradicionalmente, o Boi de Reis está ligado ao período que envolve as festas de fim de ano e o Dia de Reis, celebrado em 6 de janeiro. Em alguns grupos, as apresentações começavam meses antes e terminavam com a chamada queima do boi, ritual que simboliza o encerramento de um ciclo.
O calendário, no entanto, não é igual em todo o estado. As datas podem mudar conforme a organização da comunidade, os convites para apresentações, a disponibilidade dos integrantes e o apoio obtido para transportar o grupo e confeccionar os materiais. A adaptação do calendário é uma das formas encontradas pelos brincantes para manter a atividade em funcionamento.
Além das apresentações em suas próprias localidades, os grupos participam de festas religiosas, eventos culturais, encontros de folguedos e programações promovidas por prefeituras, associações e instituições. Essas ocasiões ampliam o contato do público com a tradição e ajudam a dar visibilidade aos mestres.
O ritual, porém, não se resume ao momento em que o grupo entra em cena. A preparação envolve a confecção ou a manutenção da carcaça do boi, a produção de roupas, máscaras e adereços, a organização das toadas e os ensaios dos personagens. Em muitos casos, esse trabalho é realizado pelos próprios integrantes, sem estrutura profissional permanente.
Grupos tradicionais e novas formações
O Boi Calemba Pintadinho, de São Gonçalo do Amarante, está entre os grupos tradicionais reconhecidos pelo programa de Patrimônio Vivo do estado. A manifestação é apresentada como um auto popular sobre a morte e a ressurreição do boi, com a participação de enfeitados e mascarados divididos em mestres, galantes e damas.
Em Natal, o grupo Boi de Reis do Bom Pastor mostra como a tradição também pode ser reorganizada em áreas urbanas. Criado em 2004 pelo mestre Cassiano Pontes, o grupo passou a reunir integrantes de diferentes idades. Conforme reportagem da Tribuna do Norte, a formação chegou a ser composta quase exclusivamente por mulheres, incluindo jovens e idosas.
A presença feminina representa uma mudança em relação a regras mantidas por alguns grupos mais antigos, nos quais as mulheres não participavam do elenco. A alteração não elimina as características do folguedo, mas mostra que a tradição pode ser reinterpretada pelas comunidades sem deixar de preservar seus principais elementos.
Também há exemplos de participação de crianças e adolescentes. Em grupos familiares, os mais jovens aprendem acompanhando as apresentações e assumindo gradualmente novas funções. Esse processo é decisivo para evitar que o conhecimento fique restrito aos mestres mais velhos.
Desafios para a continuidade
A permanência do Boi de Reis enfrenta dificuldades relacionadas à falta de recursos, à redução do número de brincantes e à ausência de substitutos para mestres que envelhecem ou morrem. Os grupos precisam de dinheiro para confeccionar figurinos, reparar instrumentos, transportar integrantes e manter sedes ou espaços de ensaio.
O problema financeiro também afeta a regularidade das apresentações. Muitos brincantes têm outras ocupações e não conseguem viver apenas da atividade cultural. Em alguns casos, o grupo recebe cachês, apoio de editais ou contribuições durante os eventos. Quando esses recursos não chegam, os custos são assumidos pelos próprios integrantes ou por pessoas da comunidade.
O reconhecimento como Patrimônio Vivo pode oferecer apoio importante, mas não resolve sozinho as necessidades dos grupos. A preservação depende de ações contínuas, como documentação, formação de novos brincantes, acesso a editais, valorização dos mestres e criação de espaços para ensaios e apresentações.
O Iphan informa que realiza estudos e inventários para ampliar o conhecimento sobre bens imateriais e propor medidas de proteção e valorização no Rio Grande do Norte. Esse tipo de iniciativa contribui para registrar práticas culturais, mas a salvaguarda também depende da participação direta das comunidades que mantêm os folguedos.
Preservar sem transformar a tradição em peça de museu
A continuidade do Boi de Reis não depende apenas da repetição exata de uma apresentação antiga. Cada grupo conserva elementos próprios e, ao mesmo tempo, responde às mudanças de seu território. Personagens podem ganhar novas interpretações, mulheres podem ocupar funções antes restritas aos homens e crianças podem ser incorporadas ao elenco.
Preservar, nesse caso, significa garantir que os mestres e brincantes tenham condições de continuar criando, ensinando e apresentando. A tradição permanece viva quando faz sentido para a comunidade, quando é praticada e quando encontra novas pessoas dispostas a aprender.
Ao reunir fé, memória, música, humor e representação teatral, o Boi de Reis funciona como um arquivo coletivo das comunidades potiguares. Cada toada, figurino e personagem guarda referências de um modo de vida e de uma história transmitida principalmente pela oralidade.
Enquanto os grupos seguirem ocupando ruas, terreiros, praças e espaços culturais, o Boi de Reis continuará a desempenhar seu papel como expressão da cultura popular do Rio Grande do Norte. Mais do que uma apresentação, o folguedo representa uma forma de pertencimento construída por muitas gerações.
Fontes consultadas
As informações foram organizadas a partir de reportagem da Tribuna do Norte, do levantamento sobre grupos reconhecidos pelo programa de Registro do Patrimônio Vivo do Rio Grande do Norte e das informações do Iphan sobre patrimônio imaterial no estado.





