Currais Novos ocupa uma posição de destaque no Seridó do Rio Grande do Norte por reunir, em um mesmo território, diferentes camadas da formação sertaneja. A cidade nasceu ligada à criação de gado, cresceu em torno de uma capela dedicada a Sant’Ana, participou de transformações sociais importantes no fim do século 19 e, mais tarde, teve sua economia marcada pela exploração da scheelita.
Esse percurso histórico permanece visível na paisagem. Antigos espaços religiosos, praças, acervos culturais, áreas de mineração e formações rochosas ajudam a contar a trajetória do município, que também integra o Geoparque Seridó Mundial da Unesco, reconhecido internacionalmente em 2022.
Origem ligada ao ciclo do gado
A história de Currais Novos está associada à expansão da pecuária pelo interior do Nordeste durante o século 18. Segundo registros históricos do IBGE e informações da Prefeitura de Currais Novos, o povoamento começou a ganhar forma em 1755, quando o coronel Cipriano Lopes Galvão se estabeleceu na região da Data do Totoró e organizou uma fazenda de criação de gado.
A atividade pecuária exigia estruturas para reunir, separar e comercializar os animais. Na confluência dos rios Totoró e Maxinaré, foram construídos novos currais, feitos com materiais disponíveis na região. A presença dessas instalações teria dado origem ao nome que, com o tempo, passou a designar a fazenda, o povoado, a vila e o município.
Naquele período, o sertão era ocupado por fazendas extensas, caminhos de circulação de boiadas e pequenos núcleos de apoio à produção. A criação de gado contribuiu para conectar áreas do interior potiguar a zonas de comércio e abastecimento, além de estimular a chegada de famílias vindas de outras partes do Nordeste.
O Totoró e a formação da comunidade
A área do Totoró é considerada um dos principais marcos da origem de Currais Novos. Foi ali que se estabeleceram os primeiros núcleos ligados à criação de gado e às relações familiares que influenciaram a formação do município.
Depois da morte de Cipriano Lopes Galvão, em 1764, sua família continuou a ampliar a ocupação das terras. O capitão-mor Cipriano Galvão, filho do pioneiro, manteve propriedades na região e participou da organização religiosa e social do povoado.
Em 1808, foi concluída uma capela dedicada a Sant’Ana. A construção recebeu uma imagem trazida do Recife e passou a funcionar como centro de devoção e convivência comunitária. A primeira procissão com a imagem da santa ocorreu em 26 de julho daquele ano, data que se incorporou à memória religiosa local.
Com o crescimento da população, a antiga capela deixou de comportar os fiéis. Em 1889, começou a demolição da estrutura para a construção da igreja que deu origem à atual Matriz de Sant’Ana. O templo tornou-se um dos símbolos históricos e arquitetônicos de Currais Novos.
Da condição de distrito à cidade
Currais Novos pertenceu administrativamente a Acari durante parte de sua formação. O distrito foi criado pela Lei Provincial nº 893, de 20 de fevereiro de 1884. Seis anos depois, em 15 de outubro de 1890, o município foi desmembrado de Acari por meio do Decreto Estadual nº 59.
A instalação administrativa ocorreu em 6 de fevereiro de 1891. Já a elevação à categoria de cidade foi oficializada pela Lei Estadual nº 486, de 29 de novembro de 1920.
Essas mudanças acompanharam o crescimento da população e a consolidação das atividades agropecuárias. A criação de gado, as feiras e as vaquejadas continuaram presentes na vida econômica e cultural do município. A tradição das disputas entre vaqueiros, inicialmente associada às fazendas, ganhou novos espaços ao longo do tempo e permanece como referência da identidade sertaneja local.
Memória da luta abolicionista
A história de Currais Novos também inclui a participação de grupos locais no movimento abolicionista do Rio Grande do Norte. De acordo com o histórico reunido pelo IBGE, um núcleo da Sociedade Libertadora norte-rio-grandense atuou no município sob a liderança de representantes da elite local e de outros moradores.
O registro histórico afirma que o último escravizado da localidade foi libertado em 19 de março de 1888, três meses antes da assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio daquele ano. A informação integra a narrativa oficial sobre a abolição em Currais Novos, embora a compreensão do período exija também considerar a participação da população negra na formação econômica, social e cultural do Seridó.
Esse capítulo pode ser conhecido em acervos, espaços culturais e pesquisas sobre a formação do município. A preservação documental é importante para ampliar a compreensão sobre os diferentes grupos que participaram da construção da cidade, não apenas os proprietários de terras e os agentes políticos.
A mineração e a transformação da paisagem
No século 20, Currais Novos passou a ser associada também à mineração. A Mina Brejuí tornou-se um dos principais símbolos desse período, especialmente pela exploração da scheelita, mineral utilizado como fonte de tungstênio.
O complexo minerador reúne elementos de interesse histórico, geológico e cultural. Entre eles estão galerias subterrâneas adaptadas para visitação, o Memorial Tomaz Salustino, o Museu Mineral Mário Porto, a Igreja de Santa Tereza, a Gruta de Santa Bárbara e áreas formadas pelo acúmulo de rejeitos da atividade mineral.
Segundo o Serviço Geológico do Brasil, a Mina Brejuí é um geossítio que reúne rochas, estruturas subterrâneas, memória do trabalho e espaços ligados à antiga vila operária. A visitação permite compreender como a mineração modificou o território e influenciou a economia, as relações sociais e o cotidiano de várias gerações.
A experiência também revela uma paisagem marcada pela presença humana. Túneis, pilhas de rejeito, construções religiosas e instalações de apoio formam um conjunto que não pode ser separado da história dos trabalhadores que atuaram na mina. Por isso, a memória da mineração deve ser observada tanto pelo ponto de vista empresarial quanto pelas experiências de quem viveu o trabalho subterrâneo e a vida comunitária no entorno.
Pedra, água e sertão no Totoró
Além da história, Currais Novos se destaca pela variedade de suas paisagens. O Complexo Turístico do Totoró reúne formações rochosas, áreas de interesse arqueológico e referências associadas às origens do município. O local também é conhecido pela Pedra do Navio e pelo cruzeiro instalado em uma das áreas de destaque da paisagem.
O relevo do Seridó resulta de processos geológicos que produziram serras, lajedos, inselbergues, vales e corredores naturais. Em Currais Novos, essas formas aparecem em diferentes pontos do território e ajudam a explicar a relação entre as comunidades sertanejas e o ambiente semiárido.
O Cânion dos Apertados é outro dos principais atrativos naturais do município. A formação apresenta paredões rochosos e um curso d’água que, em períodos favoráveis, modifica a aparência do cenário. A visita ao local exige atenção às condições climáticas, ao acesso e às orientações de segurança, especialmente em áreas de trilha e de passagem por leitos de rios.
A paisagem dos Apertados também exemplifica a importância do turismo de natureza planejado. A visitação pode contribuir para a economia local, mas depende da conservação das rochas, da vegetação, dos cursos d’água e dos vestígios históricos existentes na região.
Currais Novos no Geoparque Seridó
Currais Novos integra o território do Geoparque Seridó, formado por seis municípios do centro-sul do Rio Grande do Norte. O geoparque reúne patrimônio geológico, biodiversidade, registros arqueológicos, manifestações culturais e atividades econômicas tradicionais.
Em abril de 2022, o Geoparque Seridó passou a integrar oficialmente a Rede Mundial de Geoparques da Unesco. A organização destaca que esse tipo de reconhecimento está relacionado à relevância geológica dos territórios e à adoção de iniciativas de educação, conservação e desenvolvimento sustentável.
O site da Unesco lista o Seridó entre os geoparques mundiais reconhecidos pela organização. A inclusão amplia a visibilidade internacional da região, mas também reforça a necessidade de planejamento, pesquisa e participação das comunidades na gestão do patrimônio.
Em Currais Novos, a Mina Brejuí, o Totoró e os Apertados representam diferentes dimensões desse patrimônio. Um está ligado à mineração e à história do trabalho; outro, à formação do povoado e aos registros do passado; o terceiro, às formas de relevo e aos processos naturais que moldaram o sertão.
Patrimônio urbano e identidade cultural
A área urbana conserva espaços que ajudam a acompanhar a evolução de Currais Novos. A Matriz de Sant’Ana, as praças Cristo Rei e Desembargador Tomaz Salustino, o antigo coreto O Guarani e edifícios públicos fazem parte do conjunto de referências históricas do município.
Museus, casas de cultura, galerias e acervos religiosos complementam esse percurso. Eles preservam documentos, objetos, fotografias e relatos relacionados à vida política, religiosa, econômica e cultural da cidade.
A literatura também ocupa lugar importante nessa memória. A Fundação Cultural José Bezerra Gomes e outros espaços dedicados à produção cultural local contribuem para manter em circulação a obra de autores e pesquisadores ligados ao Seridó.
Em Currais Novos, a identidade não se resume a uma única atividade econômica ou a um único período histórico. A cidade resulta do encontro entre pecuária, religiosidade, mineração, cultura popular, pesquisa científica e convivência com o semiárido.
Uma cidade entre a memória e o futuro
Conhecer Currais Novos é percorrer uma história que começa nos caminhos do gado, passa pela construção da capela de Sant’Ana, acompanha a emancipação política e chega à mineração e ao geoturismo. Cada etapa deixou marcas na paisagem e na maneira como a população se relaciona com o território.
O desafio contemporâneo é transformar esse patrimônio em conhecimento, preservação e desenvolvimento responsável. Para isso, a visitação aos atrativos naturais e históricos precisa respeitar regras de conservação, valorizar os moradores e reconhecer a importância dos trabalhadores, das comunidades tradicionais e dos grupos que participaram da formação do município.
No coração do Seridó potiguar, Currais Novos apresenta uma combinação singular de história e paisagem. Suas igrejas, praças, minas, serras e cânions revelam que o sertão não é apenas cenário, mas também arquivo vivo de processos sociais, econômicos e naturais que continuam moldando o Rio Grande do Norte.
Fontes consultadas: Prefeitura de Currais Novos, IBGE Cidades, IBGE — histórico municipal, Serviço Geológico do Brasil e Unesco Global Geoparks.








