domingo, 25 de outubro de 2026
MANCHETES

Energia renovável no Rio Grande do Norte transforma paisagens e economia

A energia renovável no Rio Grande do Norte deixou de ser apenas uma alternativa para a matriz elétrica e passou a influenciar municípios, empregos, uso da terra, arrecadação e planos industriais. O estado lidera a geração eólica terrestre no país e começa a mirar novos negócios ligados à energia solar, à produção de hidrogênio verde e à geração offshore.

A energia renovável no Rio Grande do Norte mudou a paisagem e a economia de uma parte do estado. Torres eólicas passaram a dividir espaço com áreas de produção rural, estradas de acesso, subestações e linhas de transmissão. Em paralelo, a expansão da energia solar ampliou a presença de painéis fotovoltaicos e abriu novas oportunidades para empresas de instalação, manutenção e serviços especializados.

O movimento colocou o Rio Grande do Norte no centro da transição energética brasileira. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o estado lidera a produção eólica terrestre no país e respondeu por 34,6% do total nacional de geração onshore em 2025. O dado integra o Balanço Energético Nacional 2026, com informações referentes ao ano anterior. (dashboard.epe.gov.br)

O avanço, porém, não se resume ao volume de eletricidade produzido. A presença dos parques alterou a dinâmica de municípios do interior e do litoral, gerou contratos de arrendamento de terras, estimulou a abertura de negócios e aumentou a demanda por trabalhadores qualificados. Também trouxe conflitos e questões ainda em discussão, como os efeitos sobre comunidades, a repartição dos ganhos, o impacto cumulativo na paisagem e a capacidade da infraestrutura de transmissão.

Do primeiro leilão à liderança nacional

A expansão da geração eólica no Rio Grande do Norte ganhou impulso após o primeiro leilão de energia eólica realizado no Brasil, em 2009. A partir daquele momento, empresas passaram a prospectar áreas com ventos fortes e regulares, sobretudo no litoral setentrional e no semiárido potiguar.

Municípios como João Câmara, Parazinho, Pedra Grande, São Bento do Norte, São Miguel do Gostoso, Touros, Serra do Mel, Guamaré, Areia Branca e Bodó se tornaram referências dessa transformação. Nesses territórios, os empreendimentos passaram a ocupar grandes áreas, embora os aerogeradores utilizem apenas parte dos terrenos arrendados e permitam, em determinadas situações, a continuidade de atividades agropecuárias.

O crescimento ocorreu em etapas. Primeiro vieram os estudos de vento, a negociação fundiária e o licenciamento ambiental. Depois, as obras exigiram estradas, bases de concreto, redes elétricas e mão de obra para montagem. Na fase de operação, a demanda se concentrou em manutenção, transporte, segurança, administração e serviços técnicos.

Dados da EPE mostram que a energia eólica já ocupava posição expressiva na capacidade elétrica do estado antes da nova onda de projetos. Na tabela do Balanço Energético Nacional 2023, com dados de capacidade instalada, o Rio Grande do Norte aparecia com 6.835 megawatts de geração eólica e 366 megawatts de geração solar. (epe.gov.br)

Impacto sobre empregos, renda e negócios

A cadeia eólica alterou o perfil econômico de municípios que antes dependiam principalmente de atividades como agricultura, pecuária, pesca, extração mineral, comércio local e turismo. A construção dos parques costuma provocar um aumento temporário na contratação de trabalhadores e na circulação de dinheiro. Restaurantes, pousadas, oficinas, empresas de transporte e fornecedores de materiais também podem ser beneficiados durante as obras.

Um estudo elaborado pelo SENAI-RN e pelo núcleo MAIS-RN, da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte, analisou dez municípios com concentração de parques eólicos. A pesquisa comparou indicadores de 2005, 2015 e 2020 e identificou crescimento médio de 70% no Produto Interno Bruto dos municípios analisados, acima da média de 54% observada no conjunto do estado. (abeeolica.org.br)

O levantamento também apontou aumento na geração de empregos e na criação de negócios. Os resultados, no entanto, não significam que toda a expansão econômica tenha sido causada exclusivamente pelos parques. O próprio estudo relaciona os efeitos a uma combinação de investimentos, serviços, obras, arrendamentos e políticas públicas.

Outro trabalho acadêmico avaliou a renda per capita dos municípios potiguares entre 2010 e 2019. Utilizando um modelo de pareamento entre localidades semelhantes, os autores identificaram diferença positiva de renda nos municípios que receberam empreendimentos eólicos. A pesquisa ajuda a medir o efeito econômico direto da instalação das usinas, mas não elimina a necessidade de analisar como os ganhos são distribuídos entre proprietários, trabalhadores, empresas e comunidades. (e-revista.unioeste.br)

Os arrendamentos são uma das principais formas de conexão entre os parques e a economia rural. Proprietários recebem pagamentos pelo uso das áreas onde são instalados aerogeradores, estradas, redes e equipamentos. Para algumas famílias, a receita representa uma fonte regular de renda em regiões sujeitas à irregularidade das chuvas. Para outras, a negociação pode significar mudança no uso tradicional da terra e redução da autonomia sobre o território.

A paisagem como marca da transição energética

A imagem dos aerogeradores tornou-se uma das marcas visuais do novo perfil energético potiguar. As torres podem ser vistas em áreas costeiras, serranas e do sertão, próximas a comunidades rurais e a zonas de circulação turística. A transformação é econômica, mas também cultural: o vento passou a ser tratado como ativo estratégico, capaz de atrair investimentos e reorganizar territórios.

A implantação de parques, entretanto, modifica a topografia, abre acessos e interfere na percepção visual das áreas. Estudos sobre licenciamento no estado apontam que os empreendimentos podem provocar alterações ambientais, ecológicas e paisagísticas, além de efeitos sobre fauna, flora, lagoas e comunidades do entorno. Por isso, a classificação da fonte como renovável não dispensa avaliação ambiental e acompanhamento das medidas de mitigação. (inpublica.rn.gov.br)

Um dos desafios é avaliar não apenas o impacto de cada parque isoladamente, mas o efeito acumulado de vários empreendimentos instalados na mesma região. A análise socioambiental da EPE para o planejamento energético destaca que restrições de acesso a áreas usadas por comunidades, conflitos territoriais e insuficiência de informação podem ampliar a resistência social aos projetos. O documento também menciona preocupações relacionadas a atividades agropecuárias, coleta de recursos naturais, acesso à água e modos de vida tradicionais. (epe.gov.br)

O licenciamento ambiental é, nesse contexto, uma das principais ferramentas de planejamento. Ele deve avaliar a localização das estruturas, o impacto sobre a fauna, o ruído, o sombreamento, o tráfego de veículos, a abertura de estradas e a recuperação das áreas ao fim da operação. Também é necessário garantir participação das populações afetadas e transparência sobre contratos, compensações e responsabilidades.

Energia solar amplia a diversificação

A geração eólica continua sendo o principal símbolo da transição energética potiguar, mas a energia solar ganhou espaço na matriz do estado. A disponibilidade de radiação solar, a redução dos custos dos equipamentos e a expansão da geração distribuída estimularam a instalação de sistemas em residências, comércios, propriedades rurais e empresas.

A geração solar apresenta uma característica diferente da eólica: pode ser distribuída em sistemas de menor porte, próximos ao local de consumo. Isso permite que consumidores produzam parte da própria eletricidade e reduzam a dependência da compra integral de energia da rede, observadas as regras do setor elétrico.

A expansão também cria oportunidades para profissionais de engenharia, eletricistas, projetistas, instaladores e empresas de manutenção. No entanto, o crescimento depende de financiamento, acesso à rede, capacidade de conexão e regras estáveis para consumidores e empreendedores.

No cenário nacional, a EPE informou que a geração solar fotovoltaica alcançou 70,7 terawatts-hora em 2024, considerando a geração centralizada e a micro e minigeração distribuída. A capacidade instalada solar brasileira chegou a 48.468 megawatts no mesmo ano. (epe.gov.br)

Da produção de energia à indústria verde

O próximo passo projetado para o Rio Grande do Norte é transformar parte da eletricidade renovável em insumo industrial. A proposta inclui a produção de hidrogênio verde, amônia verde, combustíveis de baixo carbono e outros produtos destinados ao mercado nacional e à exportação.

O chamado Porto Indústria Verde, planejado para Caiçara do Norte, é apresentado como uma estrutura capaz de integrar geração de energia offshore, produção de hidrogênio verde e operações portuárias. Em agosto de 2025, o Ministério de Portos e Aeroportos anunciou R$ 11,6 milhões para estudos técnicos do projeto. O cronograma informado previa dois anos de análises, entre agosto de 2025 e julho de 2027, incluindo avaliações de logística, impactos socioeconômicos, impactos ambientais e exigências para o licenciamento. (gov.br)

O projeto ainda depende de estudos, decisões de investimento, licenciamento e infraestrutura. Portanto, não se trata de uma indústria já instalada nem de uma garantia de novos empregos. A possibilidade de produzir hidrogênio verde depende de contratos de compra, disponibilidade de água, conexão elétrica, transporte, regulação e competitividade no mercado internacional.

A geração offshore também exige cuidados específicos. A instalação de equipamentos no mar pode afetar rotas de pesca, ecossistemas marinhos, navegação e atividades costeiras. O Ibama mantém processos e estudos voltados ao licenciamento de complexos eólicos offshore, área que exige avaliação ambiental própria e regras técnicas ainda em consolidação no país. (gov.br)

O desafio de converter potencial em desenvolvimento

A experiência acumulada com a energia eólica mostra que a presença de grandes investimentos não garante, por si só, desenvolvimento social duradouro. A construção pode gerar muitos postos temporários, enquanto a operação exige uma equipe menor e mais especializada. Sem formação profissional local, parte das vagas tende a ser ocupada por trabalhadores de outras regiões.

O desafio também envolve a distribuição dos benefícios. Pagamentos de arrendamento favorecem proprietários que possuem documentação regular e áreas selecionadas pelos empreendedores. Famílias sem título formal, comunidades tradicionais e trabalhadores que dependem do uso coletivo da terra podem enfrentar mais dificuldades para negociar ou contestar decisões.

Estudos recentes sobre o estado apontam que os efeitos do arrendamento são desiguais. A pesquisa de doutorado registrada na UFRN, com foco em Serra do Mel, Rio do Fogo e João Câmara, analisa mudanças territoriais e relações sociais associadas aos parques. O trabalho considera que os benefícios podem ser complementares e temporários para alguns grupos, enquanto custos sociais e ambientais permanecem por mais tempo para outros. (sigaa.ufrn.br)

Por isso, políticas públicas precisam ir além da atração de empresas. É necessário investir em qualificação profissional, fiscalização ambiental, planejamento territorial, melhoria das estradas, reforço da rede elétrica, apoio a fornecedores locais e transparência nos contratos. Também é importante acompanhar indicadores de saúde, renda, educação e qualidade de vida nos municípios que recebem os empreendimentos.

Uma nova identidade econômica para o estado

O Rio Grande do Norte passou a ser reconhecido como um dos principais territórios brasileiros de geração renovável. O vento, antes percebido apenas como uma característica natural do litoral e do semiárido, tornou-se elemento central de uma estratégia econômica. A energia solar reforça essa posição e amplia as possibilidades de geração distribuída e de negócios tecnológicos.

A próxima etapa será decidir como esse potencial será convertido em desenvolvimento. O estado poderá permanecer principalmente como exportador de eletricidade ou avançar na atração de indústrias, centros de pesquisa, serviços especializados e cadeias produtivas associadas à transição energética.

O resultado dependerá da capacidade de conciliar investimentos com direitos territoriais, proteção ambiental e participação das comunidades. A energia renovável já transformou a paisagem potiguar. O desafio agora é fazer com que a transformação econômica seja acompanhada por benefícios sociais mais amplos e por planejamento capaz de reduzir os impactos da expansão.