domingo, 25 de outubro de 2026
Dia a Dia

Agricultura familiar no Rio Grande do Norte mantém comunidades e abastece feiras locais

A agricultura familiar no Rio Grande do Norte tem papel central no abastecimento de feiras, na geração de renda e na permanência de famílias no campo. Com apoio de políticas públicas, associações e canais de comercialização, produtores ampliam a oferta de alimentos e fortalecem as economias locais.

A agricultura familiar no Rio Grande do Norte ocupa um espaço importante na produção de alimentos, na geração de renda e na manutenção da vida econômica de comunidades rurais. Em diferentes regiões do estado, pequenos produtores cultivam frutas, hortaliças, raízes, grãos e plantas medicinais, além de criar aves, caprinos, ovinos e outros animais. Parte dessa produção chega diretamente aos consumidores por meio de feiras livres, mercados municipais, associações e programas de compras públicas.

Mais do que uma atividade econômica, a produção familiar está ligada à permanência das famílias no campo. Quando há canais de venda, assistência técnica e condições mínimas de produção, a propriedade rural deixa de ser apenas um espaço de subsistência e passa a funcionar também como fonte regular de renda. Esse movimento ajuda a sustentar comércios, transportadores, pequenos beneficiadores e prestadores de serviço nos municípios.

Dados do Censo Agropecuário 2017 mostram a dimensão da atividade rural no estado. O levantamento identificou 63,4 mil estabelecimentos agropecuários no Rio Grande do Norte e 214 mil pessoas ocupadas em atividades agropecuárias. O material do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística também registra a diversidade da produção potiguar, que inclui lavouras temporárias e permanentes, criação de animais e produção de alimentos de origem animal. (ibge.gov.br)

Produção que chega diretamente às feiras

As feiras locais são um dos principais espaços de comercialização da agricultura familiar. Nelas, o produtor pode vender diretamente ao consumidor, reduzir a dependência de intermediários e receber pelo trabalho realizado na propriedade. Para quem compra, a feira oferece acesso a alimentos produzidos na própria região e permite conhecer a origem dos produtos.

O modelo também favorece a circulação de renda dentro dos municípios. O dinheiro pago por frutas, verduras, ovos, queijos, mel, farinha, doces, polpas e outros produtos tende a permanecer mais tempo na economia local, movimentando transporte, embalagens, beneficiamento e serviços ligados à atividade rural.

No Rio Grande do Norte, iniciativas estaduais e municipais vêm estruturando espaços de venda e apoiando a participação de agricultores em eventos e feiras. Documentos oficiais do governo estadual registram ações para fomentar feiras da agricultura familiar, com cessão de equipamentos como barracas, balanças, caixas plásticas e carros de carga. Também há previsão de parcerias com organizações da sociedade civil para apoiar a realização desses eventos. (governocidadao.rn.gov.br)

Em municípios como São Miguel do Gostoso, a feira agroecológica e da economia solidária reúne hortaliças, frutas, verduras, comidas típicas e produtos artesanais. A experiência mostra como a comercialização pode combinar produção agrícola, identidade cultural e economia solidária, criando uma relação mais próxima entre agricultores e moradores. (site.saomigueldogostoso.rn.gov.br)

Abastecimento e segurança alimentar

A presença dos agricultores familiares nas feiras contribui para ampliar a oferta de alimentos frescos e diversificados. A produção de pequena escala costuma acompanhar a demanda da comunidade e pode incluir itens que não chegam com regularidade aos grandes canais de distribuição.

Esse abastecimento é especialmente relevante em municípios do interior, onde a distância dos grandes centros de comercialização pode elevar custos e dificultar o acesso a determinados produtos. Ao aproximar quem produz de quem consome, as feiras reduzem etapas de transporte e favorecem a oferta de alimentos colhidos ou processados na própria região.

A agricultura familiar também participa de políticas públicas voltadas à alimentação. O Programa de Aquisição de Alimentos, executado pela Companhia Nacional de Abastecimento em parceria com órgãos federais, estaduais e municipais, permite a compra de produtos de agricultores familiares para posterior doação a redes socioassistenciais e outras instituições. Em 2025, a Conab promoveu no Rio Grande do Norte uma oficina para orientar agricultores sobre a modalidade Compra com Doação Simultânea, incluindo regras de entrega e prestação de contas. (gov.br)

Outro canal é o Programa Nacional de Alimentação Escolar. Segundo o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, a aquisição de alimentos da agricultura familiar para o programa é realizada por chamada pública, com regras específicas para fornecedores, preços e condições de entrega. A metodologia considera as características locais do fornecimento e pode priorizar preços praticados nas feiras dos produtores. (gov.br)

Renda e permanência das famílias no campo

A venda direta ajuda a transformar a produção agrícola em renda mais previsível. Mesmo quando a propriedade é pequena, a combinação de diferentes atividades pode reduzir riscos e ampliar as possibilidades de comercialização. Uma mesma família pode trabalhar com hortaliças, criação de animais, produção de alimentos processados e venda de itens artesanais.

Essa diversificação é importante porque a agricultura está sujeita a variações climáticas, oscilações de preços, pragas, custos de transporte e mudanças na procura. Ao produzir mais de um tipo de item e utilizar diferentes canais de venda, o agricultor diminui a dependência de uma única cultura ou de um único comprador.

No semiárido, essa estratégia é acompanhada pela necessidade de adaptar o sistema produtivo à disponibilidade de água e às condições do solo. A criação de pequenos animais, o cultivo de espécies mais resistentes, o armazenamento de água e o aproveitamento de subprodutos são práticas que podem contribuir para a continuidade da atividade, embora os resultados dependam das condições de cada propriedade e do acesso a orientação técnica.

O desafio é garantir que essas famílias tenham acesso a crédito, assistência técnica, infraestrutura de armazenamento, transporte adequado e espaços regulares de comercialização. Sem esses elementos, parte da produção pode ser perdida ou vendida por valores inferiores ao custo necessário para produzir.

O papel das associações e cooperativas

As organizações coletivas ajudam a enfrentar dificuldades que seriam maiores para um produtor isolado. Associações e cooperativas podem reunir produtos, organizar calendários de entrega, negociar compras de insumos e dividir despesas com transporte, equipamentos e divulgação.

A organização também facilita a participação em chamadas públicas e programas governamentais. Para fornecer ao poder público, o agricultor precisa cumprir exigências relacionadas à documentação, à regularidade do empreendimento, à qualidade dos produtos e à capacidade de entrega. A atuação coletiva pode apoiar o planejamento e a divisão das responsabilidades.

Além da comercialização, as organizações fortalecem a troca de conhecimentos. Agricultores podem compartilhar experiências sobre plantio, manejo, processamento, embalagem e apresentação dos produtos. Essa cooperação contribui para elevar a qualidade e ampliar a variedade disponível nas feiras.

A participação das mulheres também é uma característica presente em muitas iniciativas de agricultura familiar. Elas atuam no cultivo, na criação de animais, no preparo de alimentos, na administração da renda e na venda direta. Em alguns municípios, feiras de empreendedorismo feminino reúnem bolos, doces, queijos, ovos, hortaliças, bebidas e artesanato produzidos por mulheres do campo. (pedroavelino.rn.gov.br)

Desafios para fortalecer a comercialização

Apesar da importância econômica e social, a agricultura familiar enfrenta obstáculos que limitam seu crescimento. A irregularidade das chuvas, a escassez de água, o custo do transporte e a dificuldade de acesso a equipamentos estão entre os problemas que podem afetar a produção e a venda.

Outro desafio é a regularização dos produtos processados. Itens como queijos, doces, polpas, carnes e embutidos precisam seguir regras sanitárias e de rotulagem. O cumprimento dessas exigências é necessário para ampliar os mercados, mas pode representar custo e complexidade para unidades familiares de pequena escala.

A logística também pesa. A distância entre comunidades rurais e centros consumidores, somada às condições das estradas e à falta de transporte refrigerado, pode reduzir a margem de lucro e comprometer a qualidade dos alimentos. Por isso, a existência de feiras próximas e de pontos de venda organizados é decisiva para a continuidade da atividade.

Os dados disponíveis sobre o setor também precisam ser atualizados periodicamente. O Censo Agropecuário 2017 continua sendo uma das principais referências estruturais sobre os estabelecimentos rurais, mas não substitui levantamentos contínuos sobre produção, renda, comercialização e perfil das famílias. Informações mais recentes são importantes para orientar políticas públicas e identificar as necessidades de cada região.

Consumidor como parte da cadeia

A escolha do consumidor tem impacto direto na agricultura familiar. Comprar em feiras locais, procurar produtos da região e valorizar itens de origem identificada são formas de fortalecer os produtores. A relação direta também permite conhecer os períodos de safra, os métodos de cultivo e as dificuldades enfrentadas no campo.

O consumidor deve, no entanto, observar as condições de higiene, conservação e exposição dos alimentos. Produtos perecíveis precisam ser mantidos em condições adequadas, e itens processados devem apresentar informações claras sobre origem, validade e armazenamento quando essas exigências forem aplicáveis.

O fortalecimento da agricultura familiar não depende apenas de campanhas de valorização. É necessário assegurar regularidade na realização das feiras, acesso a políticas de crédito e compras públicas, assistência técnica, melhoria da infraestrutura e transparência na execução dos programas.

No Rio Grande do Norte, as feiras locais funcionam como ponto de encontro entre campo e cidade. Ao mesmo tempo em que oferecem alimentos e produtos regionais, elas ajudam a manter renda nas comunidades, estimulam a organização dos produtores e preservam práticas econômicas e culturais. A continuidade desse modelo depende da capacidade de transformar a produção familiar em uma atividade viável, com mercado, planejamento e apoio permanente.

Fontes: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Companhia Nacional de Abastecimento, Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação e documentos oficiais do Governo do Rio Grande do Norte.