domingo, 25 de outubro de 2026
MANCHETES

Cultura popular do Rio Grande do Norte atravessa gerações e permanece presente no cotidiano

A cultura popular do Rio Grande do Norte continua presente em festas, apresentações, celebrações religiosas, narrativas orais e práticas transmitidas entre gerações. Manifestações como o Boi Calemba, o Boi de Reis, o teatro de João Redondo e a Festa de Sant’Ana revelam como tradição e transformação convivem no cotidiano potiguar.

A cultura popular do Rio Grande do Norte permanece presente na vida cotidiana por meio de festas, danças, cantorias, narrativas orais, celebrações religiosas, artesanato e modos de fazer transmitidos entre gerações. Em diferentes regiões do estado, práticas antigas continuam sendo atualizadas por mestres, grupos comunitários, artistas, pesquisadores, escolas e novas gerações de brincantes.

Mais do que lembranças de um passado distante, essas manifestações formam um conjunto de referências que ajuda a explicar a identidade potiguar. Elas aparecem em apresentações públicas, festejos religiosos, encontros comunitários, feiras, atividades educativas e produções artísticas. Em muitos casos, também se relacionam ao território, à memória das famílias e às formas de trabalho desenvolvidas no litoral, no agreste e no sertão.

Tradição que se transforma sem desaparecer

O patrimônio cultural imaterial inclui saberes, celebrações, formas de expressão, ofícios e modos de fazer reconhecidos pelas próprias comunidades como parte de sua identidade. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), essas práticas são transmitidas de geração a geração, mas também são recriadas de acordo com o ambiente, a história e as mudanças sociais.

Esse processo ajuda a compreender por que a cultura popular não permanece congelada. Uma dança pode ganhar novos figurinos, uma apresentação pode ocupar o palco de um teatro, uma história pode circular pelas redes sociais e um grupo tradicional pode adaptar seus ensaios para envolver crianças e jovens. A continuidade, nesse sentido, não depende de repetir tudo exatamente como antes, mas de preservar sentidos, conhecimentos e vínculos comunitários.

No Rio Grande do Norte, essa dinâmica pode ser observada em manifestações que combinam música, dança, encenação, religiosidade e humor. Muitas delas têm origem em tradições orais e dependem da atuação de mestres e mestras responsáveis por ensinar cantos, personagens, ritmos, gestos e formas de organização dos grupos.

Boi Calemba e Boi de Reis mantêm os autos populares em cena

Entre os folguedos mais associados à cultura potiguar está o Boi Calemba, manifestação que reúne cantos, louvações, benditos, personagens mascarados e elementos de teatro popular. Em registros sobre a tradição em Natal, o folguedo aparece organizado entre os enfeitados, ligados à parte mais cerimonial da apresentação, e os mascarados, responsáveis por cenas cômicas, paródias e diálogos com o público. (natal.rn.gov.br)

O Boi Calemba é frequentemente apresentado como uma versão potiguar do bumba meu boi nordestino. A brincadeira se relaciona a festas populares e religiosas e tem na trajetória do mestre Manoel Marinheiro, associado à comunidade de Felipe Camarão, uma referência importante para a memória do folguedo em Natal. A transmissão desse conhecimento ocorre pela convivência entre os participantes, pelo aprendizado dos repertórios e pela participação em apresentações.

Outra expressão de destaque é o Boi de Reis, presente em diferentes municípios do estado. A manifestação articula personagens, cantorias, coreografias e encenações ligadas ao ciclo natalino e às tradições dos autos populares. Pesquisas desenvolvidas na Universidade Federal do Rio Grande do Norte mostram que o Boi de Reis também pode ser recriado em formatos contemporâneos, como composições para concerto e apresentações em salas de teatro, sem perder a referência na tradição oral.

Essa passagem entre a comunidade e o palco demonstra como os folguedos podem ocupar novos espaços. A apresentação artística não substitui necessariamente a prática tradicional, mas pode contribuir para sua divulgação, documentação e aproximação com públicos que não têm contato direto com os grupos de origem.

João Redondo aproxima teatro, humor e memória

O teatro de bonecos popular, conhecido no Rio Grande do Norte como teatro de João Redondo, é outra manifestação que atravessa gerações. A prática utiliza bonecos, vozes, personagens e situações cômicas para construir narrativas marcadas pela oralidade e pela interação com o público.

Estudos da UFRN apontam que o João Redondo mantém códigos próprios, mas também incorpora mudanças provocadas pelos contextos sociais e pelos espaços onde circula. A manifestação pode ser apresentada em comunidades, escolas, eventos culturais e palcos, em um movimento que combina permanência e inovação. (sigaa.ufrn.br)

O humor é um dos elementos centrais desse teatro, mas não é o único. As cenas também podem revelar relações de poder, conflitos cotidianos, costumes e formas populares de interpretar o mundo. Por isso, os bonecos funcionam como instrumentos de crítica, entretenimento e preservação de uma linguagem que depende diretamente da habilidade do mestre e de sua relação com a plateia.

A continuidade do João Redondo exige, além do reconhecimento cultural, condições para que novos artistas aprendam a construir bonecos, manipular personagens, desenvolver vozes e organizar apresentações. A transmissão oral continua sendo importante, mas registros audiovisuais, pesquisas acadêmicas e ações educativas também ajudam a ampliar a memória da prática.

Festas religiosas reúnem fé, sociabilidade e cultura

No Rio Grande do Norte, muitas manifestações populares se desenvolvem em torno de festas religiosas. Esses eventos costumam reunir procissões, novenas, música, comida, comércio, encontros familiares, feiras e atividades culturais. A celebração religiosa, portanto, também produz espaços de convivência e reforça vínculos entre moradores, visitantes e comunidades que vivem fora de seus municípios de origem.

A Festa de Sant’Ana de Caicó é um dos exemplos mais conhecidos. Realizada no Seridó, a celebração foi registrada pelo Iphan como Patrimônio Cultural do Brasil em 2010. O festejo reúne rituais religiosos e uma programação sociocultural que inclui eventos comunitários, manifestações musicais, atividades juvenis, cavalgadas, artesanato e outras expressões associadas à identidade seridoense. (gov.br)

O reconhecimento institucional não resume a importância da festa. Sua força está também na participação dos moradores, nas promessas, nos reencontros familiares e na presença de práticas que se repetem anualmente, mas assumem novos significados para cada geração. Crianças e jovens podem participar como devotos, músicos, integrantes de grupos, vendedores, produtores culturais ou público.

Em celebrações desse tipo, a cultura popular aparece integrada à rotina. Ela está nos preparativos, na decoração, nos repertórios musicais, nos objetos produzidos para a festa, nas receitas compartilhadas e nas histórias contadas por pessoas mais velhas. A tradição, nesse caso, não ocorre apenas no momento principal do calendário, mas durante todo o ciclo de organização e participação comunitária.

Lendas, cordel e oralidade preservam diferentes visões de mundo

As lendas potiguares também integram o patrimônio cultural do estado. Transmitidas principalmente pela oralidade, essas narrativas relacionam personagens, lugares, rios, matas, animais e acontecimentos extraordinários. Para além do aspecto fantástico, elas preservam memórias, ensinamentos e formas de compreender a relação entre as pessoas, a natureza e o território. (mcc.ufrn.br)

A oralidade está igualmente presente nos benditos, nas cantorias, nos versos improvisados e na literatura de cordel. Pesquisas acadêmicas realizadas no estado mostram que os cantos religiosos populares podem conservar estruturas, palavras e símbolos transmitidos ao longo do tempo, ainda que sejam adaptados pelas comunidades que os praticam.

O cordel amplia esse circuito de circulação da memória. Os versos podem registrar acontecimentos, comentar costumes, narrar histórias de personagens locais e tratar de temas sociais. Quando passam de uma geração para outra, essas produções preservam formas de linguagem e referências coletivas, mas também incorporam acontecimentos contemporâneos.

Esse caráter vivo impede que a cultura popular seja reduzida a uma coleção de objetos antigos. Um verso pode nascer de uma tradição, mas tratar de um problema atual. Uma lenda pode ser recontada em uma escola. Uma cantoria pode ganhar gravação. Um folguedo pode ser apresentado por jovens que aprenderam os passos com familiares ou mestres da comunidade.

Artesanato e saberes tradicionais fazem parte do cotidiano

A cultura popular também está presente nos ofícios e nos modos de fazer. A produção artesanal, a pesca, a fabricação de objetos, o uso de materiais disponíveis em cada região e os conhecimentos relacionados à vida rural e litorânea formam um conjunto de práticas que nem sempre aparece em grandes apresentações, mas permanece importante para a identidade das comunidades.

O Iphan mantém inventários e estudos sobre referências culturais no Rio Grande do Norte, incluindo ações relacionadas ao Seridó, às embarcações tradicionais, à pesca artesanal, ao patrimônio ferroviário e a antigos ciclos econômicos. Esses levantamentos procuram identificar práticas, lugares, objetos e conhecimentos relevantes para a memória social e para o planejamento de ações de preservação. (gov.br)

O reconhecimento, porém, não substitui as condições concretas necessárias para a continuidade dos saberes. Mestres precisam de oportunidades de trabalho, grupos necessitam de espaços para ensaio e apresentação, e as novas gerações precisam ter contato com essas práticas em ambientes comunitários e educativos. A preservação depende, portanto, de políticas públicas, participação social, documentação e valorização dos detentores da tradição.

Novas gerações ampliam os espaços da cultura potiguar

Universidades, museus, escolas, coletivos culturais e grupos independentes têm contribuído para aproximar a cultura popular de novos públicos. O Museu Câmara Cascudo, da UFRN, por exemplo, desenvolve exposições e ações relacionadas a folguedos, bonecos, artesanato e brincantes. O Grupo Parafolclórico da universidade pesquisa e encena diferentes manifestações brasileiras, estabelecendo diálogo entre tradição e criação artística. (mcc.ufrn.br)

Esse movimento ajuda a demonstrar que a cultura popular pode ocupar espaços diversos sem deixar de estar ligada às comunidades que a produzem. A presença em museus, escolas e palcos amplia a visibilidade, enquanto a participação em festas, ensaios e encontros mantém a dimensão coletiva das práticas.

No cotidiano do Rio Grande do Norte, a tradição continua sendo construída por meio de escolhas feitas no presente. Cada grupo que ensaia, cada mestre que ensina, cada família que participa de uma festa e cada jovem que aprende uma cantiga contribui para manter em circulação um patrimônio que não pertence apenas ao passado.

A cultura popular potiguar atravessa gerações justamente porque consegue combinar memória e mudança. Seus personagens, ritmos, histórias e celebrações permanecem reconhecíveis, mas ganham novos intérpretes, novos espaços e novas formas de diálogo com a sociedade. É nessa capacidade de se renovar sem perder seus vínculos que está uma das principais forças da identidade cultural do estado.