domingo, 25 de outubro de 2026
Dia a Dia

Motocicleta ganha importância no deslocamento em cidades menores do Rio Grande do Norte

A motocicleta ocupa espaço cada vez maior nos deslocamentos de trabalho, estudo e serviços em cidades menores do Rio Grande do Norte. O veículo combina custo relativamente baixo e facilidade de circulação, mas o crescimento da frota vem acompanhado de riscos de acidentes e pressão sobre a rede de saúde.

A motocicleta ganhou importância no deslocamento diário em cidades menores do Rio Grande do Norte. Em municípios onde o transporte coletivo é limitado, irregular ou inexistente, a moto passou a ser usada para ir ao trabalho, estudar, fazer compras, acessar serviços públicos e circular entre comunidades rurais e áreas urbanas.

O fenômeno acompanha uma tendência observada em outras partes do Nordeste. Dados do Censo 2022 do IBGE mostram que os transportes individuais motorizados têm forte presença nos deslocamentos para trabalho e estudo. Na região Nordeste, a motocicleta foi usada por 26% das pessoas consideradas na pesquisa, percentual superior ao registrado para o automóvel.

No Rio Grande do Norte, o crescimento da frota também evidencia a mudança no padrão de mobilidade. Segundo dados do Departamento Estadual de Trânsito do Rio Grande do Norte divulgados em 2023, os veículos de duas rodas — grupo que inclui motocicletas, motonetas e ciclomotores — representavam cerca de 40% da frota estadual, com mais de 600 mil unidades.

Por que a moto se tornou tão presente no interior

A expansão do uso das motocicletas está relacionada a uma combinação de fatores econômicos e territoriais. O preço de aquisição e o consumo de combustível costumam ser menores que os de um automóvel. A manutenção, em muitos casos, também é mais acessível, embora dependa do modelo, da idade do veículo e das condições de uso.

Em cidades de pequeno porte, as distâncias dentro da área urbana geralmente são curtas, mas o acesso a serviços pode exigir deslocamentos para outros municípios. Consultas médicas especializadas, compras, atividades bancárias, atendimento previdenciário e compromissos administrativos são exemplos de situações que levam moradores a percorrer estradas estaduais e federais.

A moto atende a esse tipo de necessidade com rapidez e flexibilidade. O veículo pode ser utilizado em ruas estreitas, vias não pavimentadas e trajetos entre bairros afastados, além de facilitar o deslocamento de trabalhadores que vivem na zona rural ou em comunidades distantes da sede municipal.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada aponta que Norte e Nordeste apresentaram, entre 2001 e 2020, as maiores taxas de motorização por motocicletas e o crescimento mais expressivo desse tipo de frota. Para o instituto, a expansão está relacionada a fatores como renda, disponibilidade de crédito, características urbanas e limitações do transporte coletivo.

Transporte coletivo limitado aumenta a dependência

Nas cidades menores, a oferta de ônibus urbanos costuma ser mais restrita do que nas capitais e nos grandes centros. Em alguns municípios, o serviço não cobre todos os bairros ou funciona apenas em horários específicos. Em outros casos, os moradores dependem de transporte alternativo, vans, veículos particulares ou deslocamentos oferecidos por familiares.

Esse cenário torna a motocicleta uma alternativa de autonomia. O morador não precisa esperar por um horário fixo e pode combinar diferentes atividades no mesmo dia. Para quem trabalha no comércio, na agricultura, em serviços ou em atividades que exigem circulação entre municípios, essa flexibilidade tem peso importante na rotina.

A moto também é utilizada como instrumento de trabalho. Entregadores, prestadores de serviço, comerciantes e trabalhadores autônomos dependem do veículo para transportar mercadorias, visitar clientes e cumprir tarefas em diferentes pontos da cidade ou da região.

Essa presença, porém, não significa que a motocicleta substitua integralmente o transporte coletivo. Em muitos casos, ela ocupa o espaço deixado pela falta de alternativas. O resultado é uma mobilidade mais individualizada, na qual cada família precisa arcar com combustível, manutenção, documentação e equipamentos de segurança.

Frota elevada e diferenças entre os municípios

Os dados estaduais indicam que a participação das motocicletas é especialmente relevante fora da capital. Em Mossoró, por exemplo, levantamento baseado em informações do Detran-RN apontou que motocicletas, motonetas e ciclomotores representavam quase metade da frota municipal em 2023, superando a participação dos automóveis de passeio.

O dado ajuda a ilustrar uma característica do interior potiguar: a motocicleta pode ter presença proporcionalmente maior em cidades nas quais as famílias dependem menos do automóvel e enfrentam maiores limitações de transporte coletivo. A composição da frota, contudo, varia de acordo com renda, atividade econômica, tamanho do município, ligação com rodovias e proximidade de centros regionais.

Em municípios ligados à agricultura, à produção de sal, à pesca, ao comércio regional ou à prestação de serviços, a moto pode ser usada tanto nos deslocamentos cotidianos quanto no transporte de pequenos volumes. A intensidade desse uso depende das condições das vias e da distância até os principais polos de atendimento.

O total de veículos registrados no Rio Grande do Norte chegou a 1.720.240 unidades em 2025, segundo o painel do IBGE, que utiliza informações oficiais de trânsito. O número reúne diferentes tipos de veículos e, por isso, não representa exclusivamente a frota de motocicletas.

O custo da mobilidade sobre duas rodas

O aumento do número de motos amplia o acesso ao deslocamento, mas também produz efeitos sobre a segurança viária e a saúde pública. Motociclistas estão mais expostos em uma colisão porque não contam com a estrutura de proteção existente em automóveis. A gravidade das ocorrências tende a aumentar quando há excesso de velocidade, consumo de álcool, falta de capacete ou circulação em vias mal conservadas.

Dados divulgados pela Polícia Rodoviária Federal mostram a dimensão do problema no estado. Em 2023, quase 60% dos sinistros registrados nas rodovias federais do Rio Grande do Norte envolveram motocicletas. Entre os acidentes considerados graves, a participação foi de 64%; entre as vítimas fatais, 49% eram ocupantes de motos.

A rede hospitalar também sente os efeitos. Conforme a PRF, mais de 7 mil pacientes atendidos em 2023 no Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel foram vítimas de acidentes com motocicletas. No Hospital Tarcísio Maia, em Mossoró, a corporação informou que cerca de 400 pessoas acidentadas são atendidas por mês, com média de 85% de motociclistas.

Os números não significam que o uso da moto seja, por si só, a causa dos acidentes. Eles mostram, porém, que a expansão desse meio de transporte precisa ser acompanhada por políticas de educação, fiscalização, melhoria viária e atendimento adequado às vítimas.

Desafios para as prefeituras

O crescimento da circulação de motocicletas exige mudanças no planejamento urbano. Mesmo em cidades pequenas, medidas como sinalização adequada, iluminação, manutenção do pavimento, organização dos cruzamentos e controle de velocidade podem reduzir riscos.

Também é necessário considerar as particularidades das áreas rurais e das rodovias que atravessam os municípios. Muitos moradores utilizam a moto em trajetos mistos, que começam em estradas de terra, passam por vias urbanas e terminam em rodovias estaduais ou federais. A falta de sinalização ou de acostamento pode elevar a exposição dos condutores.

A fiscalização deve ser combinada com orientação. A regularização da documentação, o uso correto do capacete, a habilitação dos condutores e a manutenção dos veículos são medidas básicas de segurança. Campanhas em escolas, empresas, feiras, unidades de saúde e comunidades rurais podem alcançar públicos que nem sempre são atendidos pelas ações realizadas nos grandes centros.

Outro desafio é produzir dados locais. Informações sobre acidentes, pontos de maior risco, horários de ocorrência e perfil das vítimas ajudam as administrações municipais a definir prioridades. Sem esse diagnóstico, as intervenções tendem a ser genéricas e podem não alcançar os trechos mais perigosos.

Mobilidade precisa combinar acesso e segurança

A motocicleta cumpre uma função importante na vida econômica e social das cidades menores do Rio Grande do Norte. Para milhares de moradores, ela representa acesso ao trabalho, à educação, à saúde e ao comércio. Em muitos casos, é o meio mais viável para vencer distâncias que não são atendidas pelo transporte público.

Ao mesmo tempo, a dependência crescente das motos revela limitações estruturais da mobilidade urbana. Quando a população precisa recorrer quase exclusivamente ao transporte individual, aumentam os custos familiares e os riscos associados ao trânsito.

O desafio para o estado e os municípios é garantir que a motocicleta continue sendo uma alternativa de deslocamento sem que a expansão da frota seja acompanhada pelo crescimento de acidentes graves. Para isso, são necessárias ações integradas de transporte, infraestrutura, fiscalização, educação e atendimento em saúde.

Nas cidades menores, onde a moto já faz parte da rotina, políticas públicas voltadas aos motociclistas deixaram de ser uma medida setorial. Elas passaram a integrar o planejamento da mobilidade e a agenda de segurança viária do Rio Grande do Norte.