domingo, 25 de outubro de 2026
MANCHETES

Pequenas cidades potiguares que guardam grandes histórias no Rio Grande do Norte

Acari, Portalegre, Martins e Vila Flor mostram como pequenas cidades do Rio Grande do Norte concentram patrimônios religiosos, paisagens históricas e episódios ligados à ocupação do sertão e do litoral potiguar.

Quando se fala no Rio Grande do Norte, as imagens mais conhecidas costumam estar associadas às praias, às dunas e à capital Natal. Mas a história potiguar também está espalhada por municípios de menor porte, onde igrejas antigas, casarões, serras, açudes e antigas aldeias ajudam a contar como o estado foi ocupado e transformado ao longo dos séculos.

Entre essas pequenas cidades potiguares, Acari, Portalegre, Martins e Vila Flor se destacam por reunir patrimônios de naturezas diferentes. No Seridó, a memória sertaneja aparece ligada à religiosidade, à pecuária e à convivência com a seca. No Alto Oeste, as serras guardam marcas da ocupação colonial e das disputas por terras. Já no litoral sul, Vila Flor preserva um núcleo urbano relacionado à presença indígena, às missões religiosas e à antiga economia açucareira.

As histórias desses municípios combinam documentos oficiais, tradições locais e versões transmitidas entre gerações. Por isso, alguns episódios aparecem registrados de formas diferentes nas fontes históricas. Ainda assim, o conjunto revela a importância de cidades que muitas vezes ficam fora dos roteiros mais conhecidos.

Acari preserva a memória do Seridó

Localizada na região do Seridó, Acari teve sua formação associada à expansão da pecuária e à ocupação das áreas próximas aos cursos d’água e às serras. O município foi emancipado em 1833 e, desde então, construiu uma identidade marcada pela religiosidade, pela vida sertaneja e pela valorização de suas paisagens naturais.

A história local pode ser observada no centro urbano, em igrejas, sobrados, casas antigas e espaços destinados à preservação da memória. O Museu Histórico de Acari participa desse esforço ao reunir exposições, atividades culturais e ações voltadas à documentação da trajetória do município. A prefeitura também promove passeios históricos e programações relacionadas à cultura local. (acari.rn.gov.br)

Entre os marcos religiosos está a Basílica Menor de Nossa Senhora da Guia, ligada à devoção que ocupa lugar central na vida da cidade. A festa da padroeira é uma das manifestações mais importantes do calendário municipal e atrai moradores que vivem em outras cidades e visitantes interessados nas tradições do Seridó.

Acari também é conhecida pelo Açude Marechal Dutra, chamado de Gargalheiras. Construído em uma área cercada por formações rochosas, o reservatório se tornou um dos principais símbolos do município. Além de sua função histórica no enfrentamento da irregularidade das chuvas, o açude passou a integrar a paisagem turística da região. O governo estadual destaca o conjunto de construções históricas, sítios arqueológicos, museus e o Gargalheiras entre os atrativos de Acari. (rn.gov.br)

A cidade, portanto, reúne duas dimensões da história potiguar: a memória material dos antigos moradores e a relação permanente do sertanejo com a água, a fé e o território.

Portalegre e as marcas da ocupação serrana

No Alto Oeste do Rio Grande do Norte, Portalegre se desenvolveu em uma área de serra que durante muito tempo funcionou como ponto de passagem, refúgio e ocupação agrícola. A formação do município está relacionada à Serra dos Dormentes, posteriormente conhecida como Serra de Santana, e à chegada de famílias conduzidas para o alto da serra no século XVIII.

De acordo com a história registrada pela Câmara Municipal, a povoação foi fundada em 1761, quando Miguel Carlos Caldeira de Pina Castelo conduziu mais de 70 famílias paiacus aldeadas em Apodi para a região. A documentação local também registra diferentes explicações para o nome Portalegre. Uma delas relaciona a denominação à expressão atribuída à paisagem vista do alto da serra; outra aponta uma possível referência à cidade portuguesa de mesmo nome. (cmportalegre.rn.gov.br)

Essas versões mostram como a memória dos municípios brasileiros costuma ser formada por documentos administrativos, narrativas orais e interpretações históricas que nem sempre coincidem inteiramente. Mais do que escolher uma única explicação, o importante é reconhecer que o nome está ligado ao processo de organização da povoação e às relações entre colonizadores, indígenas e autoridades da época.

A localização elevada contribuiu para diferenciar Portalegre da paisagem semiárida predominante em boa parte do estado. O clima mais ameno, as formações rochosas, as trilhas, as cachoeiras e as grutas passaram a ser associados ao potencial turístico da Serra de Portalegre. O diagnóstico do turismo estadual identifica a área como parte das Serras Potiguares e destaca também a presença de sítios arqueológicos e núcleos urbanos com interesse histórico. (setur.rn.gov.br)

Hoje, a cidade preserva a relação entre paisagem e memória. As serras não são apenas um cenário para visitantes: elas ajudam a explicar por que a ocupação ocorreu naquele ponto e como as comunidades adaptaram sua vida às condições naturais do Alto Oeste.

Martins mudou de nome, mas manteve a memória da serra

Vizinha de Portalegre, Martins é outra cidade serrana cuja história está diretamente ligada à ocupação do interior potiguar. Os registros do IBGE apontam que, no século XVIII, a área era conhecida como Serra da Conceição e reunia pequenos núcleos de fazendas. A presença de Francisco Martins Roriz, a partir de 1742, contribuiu para a consolidação do povoado e para a construção de uma capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição. (ibge.gov.br)

Com o passar do tempo, a serra passou a ser chamada de Serra dos Martins. Em 1841, o povoado foi desmembrado de Portalegre e elevado à condição de vila com o nome de Maioridade. Poucos anos depois, recebeu a denominação de Cidade de Imperatriz. Somente no fim do século XIX o município passou a se chamar oficialmente Martins.

A sucessão de nomes revela mudanças políticas e administrativas comuns na formação dos municípios brasileiros. Também mostra como a denominação popular, associada à presença de uma família ou de uma liderança local, pode sobreviver às alterações impostas pelas autoridades.

A antiga Igreja do Rosário, relacionada à capela construída no processo de ocupação da serra, permanece como uma referência da paisagem urbana. O município também conserva mirantes, formações rochosas e áreas de interesse natural que ampliaram sua vocação turística. A prefeitura identifica a cidade como um destino de patrimônio paisagístico, religioso e cultural, enquanto o governo estadual destaca o clima serrano e os festivais gastronômicos promovidos na região. (martins.rn.gov.br)

Martins mostra que a história de uma cidade não está apenas em datas de emancipação. Ela também aparece no desenho das ruas, nas igrejas, na mudança dos nomes oficiais e na permanência de uma identidade construída em torno da serra.

Vila Flor guarda um dos núcleos coloniais mais expressivos do estado

Na faixa litorânea do Rio Grande do Norte, Vila Flor apresenta uma trajetória diferente das cidades serranas do interior. Sua origem está ligada à aldeia de Gramació, formada em uma área destinada a um aldeamento indígena sob responsabilidade de religiosos. A transformação da aldeia em vila ocorreu em meados do século XVIII, em um processo que envolveu a adoção de nomes portugueses para os novos núcleos administrativos.

Os registros do IBGE indicam que a Casa da Câmara e Cadeia e a Igreja de Nossa Senhora do Desterro foram construídas entre 1743 e 1745. A instalação formal da vila ocorreu posteriormente, em 1769. A economia local se desenvolveu com base na agricultura e na produção de cana-de-açúcar, favorecidas pelas terras úmidas da região. (ibge.gov.br)

Um dos capítulos mais singulares da história de Vila Flor é a transferência da sede administrativa para o povoado de Uruá, que se tornou Canguaretama em 1858. Durante décadas, Vila Flor deixou de ser município e permaneceu como distrito. O município foi restaurado em 1963, quando voltou a se separar de Canguaretama.

O processo é considerado incomum porque Vila Flor foi instalada como município, perdeu essa condição e posteriormente recuperou sua autonomia. Publicação histórica do antigo órgão federal de preservação descreve a cidade como um núcleo formado por uma grande praça, casas modestas e dois edifícios centrais: a Igreja de Nossa Senhora do Desterro e a Casa de Câmara e Cadeia. (gov.br)

Esse conjunto ajuda a compreender a organização urbana do período colonial, quando a igreja e o edifício administrativo desempenhavam funções centrais na vida das comunidades. Também evidencia a presença indígena na origem da povoação e a posterior reorganização do território segundo os interesses administrativos e econômicos da colonização.

Patrimônio que depende de preservação permanente

As histórias de Acari, Portalegre, Martins e Vila Flor mostram que o patrimônio potiguar não está concentrado apenas nos grandes centros ou nos destinos turísticos mais populares. Em muitos municípios pequenos, a memória está distribuída entre igrejas, museus, praças, casas antigas, festas religiosas, paisagens naturais e relatos preservados pelos moradores.

Essa riqueza, porém, não garante sozinha a conservação dos bens históricos. Edificações antigas exigem manutenção, documentação e políticas contínuas de preservação. A visitação turística também precisa respeitar os espaços, as comunidades e as características ambientais de cada localidade.

O desafio é transformar a história em instrumento de conhecimento e desenvolvimento sem reduzir o patrimônio a um cenário. Quando uma cidade preserva seus documentos, seus edifícios e suas tradições, ela mantém viva a possibilidade de compreender o passado e de discutir o próprio futuro.

Nas pequenas cidades potiguares, grandes histórias continuam presentes justamente porque não foram separadas do cotidiano. Elas aparecem na celebração da padroeira, no caminho até o mirante, na praça diante da igreja, na lembrança dos antigos moradores e na paisagem que ainda orienta a vida local.