domingo, 25 de outubro de 2026
MANCHETES

Produção cultural no Rio Grande do Norte movimenta cidades da capital ao interior

A produção cultural no Rio Grande do Norte gera emprego, renda e circulação de recursos em Natal e no interior. Dados do IBGE apontam concentração empresarial na capital e forte participação de municípios do Seridó, enquanto políticas de fomento ampliam o alcance de projetos culturais.

A produção cultural no Rio Grande do Norte movimenta uma cadeia que vai além de shows, festas e apresentações. O setor reúne profissionais do audiovisual, música, teatro, dança, artesanato, design, patrimônio, literatura, moda, gastronomia e produção de eventos. Em diferentes regiões do estado, essas atividades ajudam a gerar trabalho, renda e circulação de pessoas e recursos.

Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a cultura tem peso relevante na economia potiguar, embora esteja distribuída de forma desigual entre os municípios. Natal concentra a maior parte das empresas e dos trabalhadores vinculados ao setor, enquanto cidades do interior apresentam vocações específicas, muitas delas associadas ao artesanato, à produção têxtil, à cerâmica, à música e às manifestações populares.

O cenário revela uma dupla dinâmica: a capital funciona como principal centro de serviços, produção e contratação, mas o interior mantém redes culturais próprias, capazes de sustentar atividades econômicas e fortalecer identidades regionais.

Natal concentra empresas e trabalhadores

A capital potiguar reúne a maior estrutura empresarial da cultura no estado. Conforme dados do Sistema de Informações e Indicadores Culturais (SIIC), do IBGE, Natal concentrava, em 2022, 51% das unidades locais do setor cultural do Rio Grande do Norte e 60% do pessoal ocupado nessa área.

O levantamento contabilizou 3.042 unidades locais culturais na cidade, com 12.400 trabalhadores. Desse total, 8.437 eram assalariados. As remunerações movimentadas por essas unidades chegaram a R$ 261,2 milhões no ano analisado. Os dados consideram atividades culturais organizadas em unidades empresariais e institucionais, uma das dimensões usadas pelo IBGE para medir o setor. (tribunadonorte.com.br)

A concentração em Natal está relacionada à presença de equipamentos culturais, universidades, empresas de comunicação, produtoras, espaços de eventos, órgãos públicos e maior mercado consumidor. A cidade também reúne parte significativa dos profissionais responsáveis pela criação, produção, divulgação e distribuição de bens e serviços culturais no estado.

Esse quadro não significa, porém, que a produção cultural potiguar esteja restrita à capital. Mossoró e Parnamirim aparecem entre os municípios com maior número de organizações culturais, enquanto outras cidades se destacam pela proporção de trabalhadores envolvidos em atividades do setor.

Seridó se destaca pela participação da cultura no trabalho

O interior do Rio Grande do Norte apresenta uma realidade diferente da observada em Natal. Em vez de concentrar grandes estruturas empresariais, muitos municípios sustentam a atividade cultural por meio de redes locais, negócios familiares, trabalhadores autônomos, associações, grupos artísticos e iniciativas comunitárias.

O Seridó é o principal exemplo dessa dinâmica. Segundo dados do IBGE baseados no Censo Demográfico de 2022, sete dos dez municípios potiguares com maior percentual de pessoas ocupadas em atividades culturais estão na região. São José do Seridó lidera o ranking, com 22% da população de 14 anos ou mais ocupada no setor cultural.

Também aparecem entre os municípios com maior participação Acari, Jardim de Piranhas, Carnaúba dos Dantas, Cruzeta, Parelhas e São Vicente. Em algumas dessas cidades, a presença da cultura está relacionada ao trabalho têxtil, à costura, ao bordado, à cerâmica, à música, à marcenaria e ao artesanato.

O levantamento indica que, em determinados municípios, a cultura não é apenas uma atividade complementar. Ela integra a estrutura produtiva local e está associada à transmissão de conhecimentos entre gerações, à manutenção de ofícios e à criação de produtos que podem ser vendidos em feiras, lojas, eventos e canais digitais. (tribunadonorte.com.br)

Artesanato, cerâmica e música formam cadeias regionais

As atividades culturais do interior potiguar estão ligadas às características econômicas e históricas de cada território. No Seridó, a produção têxtil e de vestuário aparece entre os segmentos mais recorrentes em municípios como São José do Seridó, Acari, Jardim de Piranhas, Cruzeta, Parelhas e São Vicente.

A cerâmica também ocupa posição importante em cidades como Acari, Carnaúba dos Dantas, Cruzeta e Parelhas. A produção envolve peças utilitárias e artísticas, além de conhecimentos técnicos relacionados à preparação da matéria-prima, à modelagem e à queima.

Em outras localidades, a cadeia cultural se estrutura em torno de bandas, grupos de dança, festas tradicionais, manifestações religiosas, quadrilhas juninas, teatro, audiovisual e eventos gastronômicos. Essas iniciativas costumam mobilizar artistas, técnicos de som e iluminação, costureiros, cenógrafos, fotógrafos, profissionais de comunicação, comerciantes e prestadores de serviços.

O impacto econômico, portanto, não se limita ao pagamento do artista ou do grupo responsável pela apresentação. Uma programação cultural pode gerar demanda para transporte, alimentação, hospedagem, montagem de estruturas, segurança, divulgação e comércio local.

Um setor amplo e com diferentes formas de trabalho

Os números do IBGE variam conforme a fonte e a metodologia utilizada. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua identificou cerca de 64 mil pessoas ocupadas em atividades culturais no Rio Grande do Norte em 2022, o equivalente a aproximadamente 4,6% do total de ocupados no estado naquele ano.

Já os dados do Cadastro Central de Empresas e de outras bases administrativas contabilizaram 5.961 unidades locais culturais no estado, com 20.590 trabalhadores e R$ 354,3 milhões em salários e outras remunerações. As duas informações não são contraditórias: a primeira considera pessoas ocupadas em uma perspectiva mais ampla, incluindo diferentes formas de inserção no mercado de trabalho; a segunda se concentra em unidades identificadas em registros empresariais e administrativos.

A diferença ajuda a explicar uma característica comum do setor cultural: parte significativa da produção é realizada por autônomos, microempreendedores, grupos informais, associações e profissionais que trabalham por projeto. Muitas atividades não funcionam com emprego permanente ou estrutura empresarial tradicional.

Essa configuração amplia a diversidade da produção, mas também pode dificultar o acesso a crédito, formalização, previdência, capacitação e políticas públicas. Para muitos agentes culturais, a participação em editais é uma das principais formas de financiar projetos e garantir a continuidade das atividades.

Recursos públicos ampliam a circulação de projetos

Nos últimos anos, mecanismos nacionais e estaduais de fomento passaram a alcançar municípios de diferentes portes. A Lei Paulo Gustavo e a Política Nacional Aldir Blanc direcionaram recursos para estados e cidades, com editais voltados a linguagens como audiovisual, música, artes cênicas, cultura popular, patrimônio, artesanato e formação cultural.

No Rio Grande do Norte, plataformas e editais estaduais e municipais passaram a reunir oportunidades para agentes culturais, pontos de cultura, grupos artísticos e iniciativas comunitárias. Em cidades do interior, esses recursos podem viabilizar a compra de equipamentos, a realização de oficinas, a gravação de obras audiovisuais, a circulação de espetáculos e a organização de festivais.

A distribuição do dinheiro, contudo, depende da capacidade de cada município para elaborar editais, divulgar chamadas públicas, orientar os proponentes e acompanhar a execução dos projetos. O Ministério da Cultura estabelece regras gerais para programas nacionais, mas a aplicação local exige planejamento, estrutura administrativa e transparência.

O Ministério da Cultura informa que a Lei Paulo Gustavo destinou recursos a estados e municípios para apoiar ações e projetos culturais. No caso do Rio Grande do Norte, iniciativas estaduais e municipais complementam esse sistema de financiamento por meio de editais e programas próprios. (gov.br)

Desafios ainda limitam o crescimento

Apesar da expansão de editais e programas de fomento, a produção cultural potiguar enfrenta obstáculos. Entre eles estão a concentração de equipamentos e serviços na capital, a dificuldade de circulação entre municípios, a falta de espaços adequados para apresentações, a instabilidade de renda e a baixa capacidade de investimento de grupos e profissionais independentes.

Outro desafio é transformar projetos pontuais em políticas permanentes. Um festival ou uma oficina pode gerar impacto imediato, mas a continuidade depende de calendário, formação de público, profissionalização da gestão e acesso regular a recursos.

Também é necessário melhorar a produção de dados municipais. Informações sobre número de artistas, espaços culturais, grupos ativos, empregos, renda e público ajudam a orientar decisões. O IBGE destaca que o recorte por município permite compreender diferenças territoriais e identificar vocações que muitas vezes não aparecem nas estatísticas estaduais agregadas. (ibge.gov.br)

Capital e interior formam uma rede cultural

A produção cultural no Rio Grande do Norte não se organiza em uma única direção. Natal concentra empresas, trabalhadores, equipamentos e serviços especializados, mas depende da diversidade criada em outras regiões. O interior, por sua vez, preserva conhecimentos, linguagens e formas de produção que podem alcançar novos mercados quando encontram canais de divulgação, financiamento e circulação.

Essa relação pode ser fortalecida por programas de intercâmbio, circuitos regionais, feiras, mostras, residências artísticas e ações de formação. A integração entre municípios também reduz custos e amplia o público para grupos que dificilmente conseguiriam realizar apresentações ou comercializar produtos de forma isolada.

Os dados disponíveis indicam que a cultura já participa da economia potiguar de maneira concreta. Ela gera ocupação, movimenta salários, sustenta pequenos negócios e ajuda a manter atividades tradicionais. O desafio é transformar essa presença em uma política de desenvolvimento mais articulada, capaz de reconhecer tanto a estrutura profissional da capital quanto as vocações culturais do interior.