domingo, 25 de outubro de 2026
MANCHETES

Turismo no interior do Rio Grande do Norte ganha espaço com novos roteiros

O interior do Rio Grande do Norte passa a ocupar posição mais estratégica na promoção turística do estado, com novos roteiros voltados à natureza, à cultura, à gastronomia e às comunidades tradicionais.

O turismo no interior do Rio Grande do Norte começa a ganhar mais espaço na estratégia de divulgação do estado. Novos roteiros e projetos vêm sendo estruturados para apresentar aos visitantes uma oferta que vai além das praias, dunas e falésias conhecidas do litoral potiguar.

As iniciativas reúnem atrativos naturais, patrimônio histórico, manifestações culturais, gastronomia regional, artesanato e experiências conduzidas por moradores. A proposta é ampliar a permanência dos visitantes, distribuir melhor o movimento turístico entre os municípios e criar novas oportunidades de renda para empreendedores e comunidades locais.

Entre as ações recentes estão a criação de roteiros no Oeste Potiguar, o fortalecimento do turismo de base comunitária e a proposta de uma rota voltada às formações serranas do Seridó. Embora estejam em diferentes estágios de implantação, os projetos indicam uma tentativa de transformar atrativos isolados em produtos turísticos organizados.

Interiorização busca reduzir concentração no litoral

Durante décadas, a imagem turística do Rio Grande do Norte esteve fortemente associada a Natal, Pipa, Genipabu, São Miguel do Gostoso e a outros destinos costeiros. Esse conjunto de lugares continua sendo importante para o setor, mas o estado também possui paisagens, tradições e manifestações culturais distribuídas por regiões como o Seridó, o Oeste, o Agreste e o Alto Oeste.

A interiorização do turismo procura inserir esses municípios nos circuitos comercializados por agências, operadoras e plataformas de viagem. Para isso, não basta apenas divulgar um ponto turístico. É necessário organizar acesso, recepção, guiamento, alimentação, hospedagem, sinalização e formas de reserva.

O próprio planejamento estadual de turismo prevê a organização de atrativos em roteiros e a criação de mecanismos para dar maior visibilidade a lugares ainda pouco conhecidos pelo público. A estratégia considera a integração entre municípios e a formação de experiências temáticas, como turismo religioso, natureza, cultura, gastronomia e aventura. (setur.rn.gov.br)

Na prática, a regionalização pode beneficiar cidades que não dispõem de grandes hotéis ou de infraestrutura para receber fluxos intensos de visitantes. Ao se integrarem a um roteiro, esses municípios podem oferecer atividades de curta duração, hospedagem familiar, restaurantes, produtos artesanais e serviços conduzidos por profissionais locais.

Projeto reúne destinos do Oeste Potiguar

Uma das iniciativas voltadas à ampliação da oferta é o projeto Turistar RN – Rotas & Roteiros do Oeste Potiguar. Apresentado em janeiro de 2025, o projeto passou a promover a região por meio da marca turística “Encantos do Oeste Potiguar”, de um portal de informações e de uma ferramenta de geolocalização turística.

A proposta inclui diferentes áreas do Oeste do estado, desde o litoral da Costa Branca até o Sertão do Apodi, o Alto Oeste e as serras associadas à chamada Rota do Frio. Segundo divulgação da Prefeitura de Grossos, estavam previstos cinco roteiros destinados ao público local e a visitantes de outras regiões do Brasil e do exterior. (grossos.rn.gov.br)

A construção de rotas com essa abrangência permite apresentar o Oeste como uma região diversificada. Em vez de vender apenas um atrativo, a estratégia combina paisagens costeiras, formações rochosas, patrimônio religioso, culinária, festas populares, atividades rurais e experiências ligadas ao modo de vida sertanejo.

O desafio é transformar essa diversidade em produtos acessíveis ao visitante. Para isso, os municípios precisam trabalhar de forma coordenada, com informações atualizadas, calendário integrado, qualificação dos prestadores de serviço e definição clara dos percursos. Sem essa organização, o roteiro corre o risco de existir apenas como material promocional, sem oferta regular para quem deseja realizar a viagem.

Turismo de base comunitária valoriza moradores

Outra frente de expansão é o turismo de base comunitária. O modelo coloca moradores e organizações locais no centro da criação e da operação das experiências. Em vez de tratar a comunidade apenas como cenário, a proposta busca fazer com que seus integrantes participem da recepção, da condução das atividades e da gestão dos resultados.

Uma parceria entre a Secretaria de Estado do Turismo e o Sebrae no Rio Grande do Norte, com execução do Instituto Vivejar, desenvolveu ações em comunidades tradicionais e quilombolas. O projeto envolveu o Território Potiguara Katu, em Canguaretama e Goianinha; a Comunidade do Porto, em Canguaretama; a Comunidade Quilombola de Sibaúma, em Tibau do Sul; e a Comunidade Indígena Sagi-Trabanda, em Baía Formosa.

As atividades incluem oficinas, encontros, visitas técnicas e aprimoramento de roteiros associados à cultura, à natureza, à culinária e ao artesanato. A Agência Sebrae de Notícias informou que o trabalho mobilizou aproximadamente 70 pessoas e contou com cerca de 22 visitas e imersões nas comunidades. (rn.agenciasebrae.com.br)

Em Sibaúma, o roteiro em desenvolvimento valoriza o Coco de Zambê, a culinária tradicional e o artesanato local. No Território Potiguara Katu, a experiência combina contato com a natureza e apresentação da história e dos costumes indígenas. Já em Sagi-Trabanda, a proposta inclui manifestações como o Toré, além de trilhas e comercialização de artesanato.

Na Comunidade do Porto, em Canguaretama, a experiência está relacionada aos manguezais, à gastronomia e ao cultivo de ostras. São atividades que podem ampliar o tempo de permanência dos turistas na região e gerar receita para pequenos negócios, desde que sejam realizadas com respeito às regras ambientais e às decisões das próprias comunidades.

Proposta cria rota pelas serras do Seridó

O potencial das áreas serranas também passou a ser discutido em uma proposta apresentada na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte. Em abril de 2026, foi apresentado um projeto de lei para instituir a rota turística “Caminhos das Serras do Sertão”. A iniciativa pretende valorizar formações naturais e manifestações culturais do Seridó potiguar.

O roteiro proposto inclui a Serra de Santana, com municípios como Lagoa Nova, Cerro-Corá, Bodó, Santana do Matos, São Vicente, Florânia e Tenente Laurentino. A região é associada a mirantes, áreas de maior altitude e nascentes do Rio Potengi.

A proposta também menciona a Serra João do Vale, abrangendo Triunfo Potiguar, Jucurutu e Campo Grande, além da Serra de São Bernardo, em Caicó. O projeto destaca o potencial dessas áreas para o ecoturismo e o turismo cultural. (al.rn.leg.br)

O texto ainda prevê a possibilidade de inclusão de outros municípios com formações serranas. Como se trata de uma proposta legislativa, a criação formal da rota e sua eventual implantação dependem da tramitação e das etapas posteriores previstas no processo público.

As serras podem atender a um perfil de visitante interessado em trilhas, paisagens, clima mais ameno, observação da natureza, fotografia e patrimônio histórico. Também podem funcionar como complemento a roteiros já existentes no Seridó, especialmente aqueles ligados à religiosidade, à arqueologia, à gastronomia e às festas tradicionais.

Experiências culturais ampliam o perfil do visitante

A diversificação dos roteiros acompanha uma mudança no comportamento de parte dos viajantes, que buscam experiências mais personalizadas e contato com a cultura local. No Rio Grande do Norte, essa procura pode ser atendida por atividades como visitas a comunidades, participação em oficinas, degustação de produtos regionais, trilhas interpretativas e passeios conduzidos por moradores.

Essa modalidade de turismo também pode ajudar a preservar conhecimentos e práticas tradicionais. Quando uma manifestação cultural é apresentada de maneira organizada e com participação da comunidade, o visitante passa a conhecer o significado daquela atividade, e não apenas a consumi-la como atração.

O cuidado, entretanto, é necessário. A abertura de novos destinos exige respeito à privacidade dos moradores, limites para visitação, proteção de áreas naturais e regras claras para o uso de imagens e manifestações culturais. A atividade turística só tende a ser sustentável quando os benefícios econômicos são acompanhados de preservação e autonomia local.

Infraestrutura ainda é parte central do desafio

A expansão do turismo no interior depende de medidas que vão além da promoção. Estradas em condições adequadas, sinalização, conectividade, segurança, atendimento de saúde, meios de pagamento e disponibilidade de hospedagem são fatores que influenciam diretamente a experiência do visitante.

Também é importante que as informações sobre funcionamento, horários, necessidade de agendamento, grau de dificuldade das trilhas e serviços disponíveis sejam divulgadas de maneira clara. Um roteiro pode ter grande potencial, mas perder atratividade se o turista não conseguir confirmar como chegar, quem realiza o atendimento ou quais custos estarão envolvidos.

Outro ponto é a qualificação profissional. Guias, condutores, artesãos, produtores rurais, cozinheiros e gestores públicos precisam atuar de forma articulada para garantir segurança e qualidade. A formação de redes entre municípios pode facilitar a criação de pacotes, a divulgação conjunta e a participação em feiras e eventos do setor.

Novos roteiros podem fortalecer economias locais

Quando bem planejado, o turismo pode movimentar uma cadeia formada por transportadores, hospedagens, restaurantes, comerciantes, produtores rurais, artesãos e profissionais de cultura. No interior, esse efeito é especialmente relevante porque parte dos gastos dos visitantes pode permanecer no próprio município.

A criação de rotas também pode estimular viagens de fim de semana e deslocamentos de curta distância. Para moradores de Natal e de outras cidades, os destinos do interior podem ser apresentados como alternativas para conhecer paisagens, culinária e tradições sem a necessidade de longas estadias.

O avanço, porém, dependerá da continuidade das ações. Projetos de roteirização precisam de manutenção, divulgação permanente, monitoramento de resultados e participação efetiva dos municípios. Também será necessário medir o número de visitantes, a geração de renda, os impactos ambientais e a distribuição dos benefícios entre os envolvidos.

Com iniciativas como o Turistar RN, os projetos de turismo de base comunitária e a proposta dos Caminhos das Serras do Sertão, o Rio Grande do Norte amplia o mapa de experiências oferecidas aos visitantes. A consolidação dos novos roteiros ainda depende de infraestrutura, integração e planejamento, mas o movimento reforça o potencial do interior como parte estratégica do turismo potiguar.